A crise financeira atual

Artigo da professora Maria da Conceição Tavares sobre a atual crise global. Leitura interessantíssima. Via Blog do Kupfer.

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Ibovespa: correção em breve?

A BOVESPA (assim como outros mercados) têm dado uma puxada forte desde março. Duas perguntas vêm à mente: por que e até quando.

Do extraordinário topo de 73 mil pontos, atingido em maio de 2008, o Ibovespa sofreu uma desvalorização de aproximadamente 60%, até outubro do mesmo ano. Em apenas cinco meses, este movimento apagou os lucros obtidos em 3 anos. Entretanto, com as recentes altas a bolsa já se recuperou, rompendo os 50 mil pontos, apesar de o ambiente econômico não estar favorável.

O aumento do investimento estrangeiro é um dos fatores que contribuiu para esta subida. Os investidores foram atraídos para a bolsa pela perspectiva de que países emergentes saiam da crise antes dos países ricos e, no caso particular do Brasil, também pela expectativa de que a diminuição dos juros atraia investidores institucionais (leia-se previdência privada) para o mercado de ações. Além disso, a entrada de capital estrangeiro fortalece o real, o que pode levar alguns investidores a abandonar o dólar e aplicar em ações, fortalecendo o movimento.

Até quando (e quanto), então, podemos esperar que a bolsa suba? Alguns economistas, como o famoso Nouriel Roubini, acreditam que o movimento já ultrapassou o que os dados econômicos sugerem. Estimativas para o PIB brasileiro apontam para crescimento nulo ou retração entre 1 a 2% para este ano. Não se deve esquecer que estamos atravessando um período pós-crise, e que os mercados tendem a demorar algo em torno de 2-3 anos para retomar uma tendência de alta após estes períodos. Vejamos o efeito da bolha da internet no Ibovespa: o topo foi atingido em março de 2000 (próximo de 19000 pontos, valorização de 250% em 2 anos e meio). O movimento de queda durou até outubro de 2002, quando se iniciou uma tendência clara de alta. Obviamente houve movimentos fortes de alta durante o período 2000-2002, mas no geral a tendência foi de queda. Note que o índice só voltou ao patamar de 2000 no final de 2003.

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Acredito que o momento atual é similar a esses momentos após a bolha de 2000, ou seja, pode ocorrer uma correção em breve. Quanto à tendência, é arriscado fazer previsões devido à alta volatilidade. Mas, salvo o caso dos investidores que vão tentar explorar as tendências de curto prazo, eu ficaria fora do mercado de ações pelo menos até o fim do ano. Por outro lado, o momento atual é atraente para investidores de longo prazo (mais de 5 anos).

O Brasil dá nota aos EUA

Matéria no Economist sobre uma agência de classificação de crédito brasileira (a saber, SR rating) que dará nota AA para os títulos americanos. A nota máxima é AAA, que representa risco virtualmente inexistente de calote. Segundo Paulo Rabello de Castro, da empresa, a nota máxima deve ser reservada para países como a Noruega, ricas em petróleo e poupadoras.

Tem-se falado bastante no déficit estadunidense, e no impacto que a crise atual (e os gastos do governo para fazer o país sair da crise) terá nas economias do país. Recentemente, a agência de rating S&P alertou sobre a qualidade de crédito do Reino Unido ser incompatível com o alto endividamento do país em relação ao seu PIB, e de um possível rebaixamento da qualidade de crédito do país. O mercado, apressado, já começou a falar em rebaixamento do rating do Tio Sam. Por mais pífia que possa parecer a opinião de uma agência brasileira para um investidor em títulos americanos, a SR pode não estar tão longe da marca.

Brasil dos juros baixos

Com a diminuição gradual da taxa de juros básica brasileira, o país deixou, recentemente, de encabeçar a lista dos países com maiores juros reais no mundo. Juros reais equivalem à taxa de juros nominais, determinada pelo BC, ajustada pela inflação. O número 1 da lista agora é a China, com juros reais de 6.6% ao ano, seguida pela Hungria (6,4% aa). O Brasil está em terceirão, com 5,8% (de acordo com a consultoria UpTrend, leia aqui).

A tendência é de queda. O Brasil já está em um patamar no qual não é justificável ter uma taxa de juros tão alta. Afastado o espectro da inflação, que nos traumatizou em décadas passadas, e dado o período de austeridade pelo qual temos passado no governo Lula, o provável é que os juro sigam caindo. Isso trará consequências enormes para diversos segmentos da sociedade. E a mentalidade do brasileiro, acostumado a ser rentista com juro alto e sem risco, terá de mudar. Quem quiser retorno mais alto, terá de se expor a risco maior.

Impacto dos juros baixos

Os bancos estão entre os mais afetados por uma taxa de juros mais baixa, pois terão de diminuir o spread (diferença entre a taxa de juros que os bancos captam dinheiro e a taxa a qual emprestam aos clientes) e, com isso, diminuir seus lucros. O Banco do Brasil aumentou ontem em R$13 bi o capital disponível para empréstimo aos correntistas, além de diminuir taxas de juros em 9 modalidades de crédito. Acusado pela mídia de tomar a decisão sob pressão do governo, o banco justificou-se com os argumentos de ter revisto os critérios de risco de crédito (agora similares aos dos concorrentes privados) e de que a exposição ao risco do BB continuou a mesma. Isso é importante, porque a inadimplência do brasileiro tem aumentado com a crise. Contudo, haverá ganhos de escala com juros mais baixos, já que mais pessoas e empresas podem tomar empréstimos se o dinheiro for mais barato. Os bancos precisarão balancear suas carteiras e expandir o crédito.

Outro segmento que já está sendo afetado pelos juros menores são os planos de previdência. Tipicamente, os fundos de previdência investem uma parcela do dinheiro dos cotistas em renda fixa, e outra em renda variável. Eles têm metas a alcançar, determinadas levando em consideração fatores atuarias, como a expectativa de vida dos aposentados, e econômicos, como rendimento de diversos investimentos. Juros menores significam que fica mais difícil alcançar a meta (que geralmente é a inflação mais uma taxa) investindo em renda fixa. Esses fundos deverão, portanto, aportar mais capital no mercado de ações, o que já atrai investidores estrangeiros para o Brasil, ávidos pelo aumento que a pressão compradora causará no preço das ações.

O comércio varejista, acostumado a extrair boa parte dos lucros de operações de crédito – e não da venda de produtos – também terá de se adaptar. Estima-se que 60% do lucro do setor vem da operação financeira (estimativa do Prof. Cláudio Felisoni da USP). Mas a festa irá acabar em breve.

Finalmente, a queda dos juros afetará também o governo, com a diminuição das dívidas, já que a captação do dinheiro fica mais barata. Dinheiro que era usado para pagar juros pode ser usado em investimento.

Enfim, o processo de queda dos juros exigirá do Brasil (e dos brasileiros) paciência e maturidade. O país tem muito a ganhar com a queda dos juros, e com a mudança de mentalidade que essa queda trará.