A Morte da Hipótese do Mercado Eficiente?

A hipótese do mercado eficiente (HME) afirma que os preços dos ativos observados nos mercados financeiros refletem toda a informação disponível até aquele momento e constituem, portanto, a melhor estimativa do valor dos ativos. Nascida na Universidade de Chicago nos anos 1960, a HME predominou em círculos acadêmicos até a década de 1990 e teve grande influência na formulação de políticas monetárias nos EUA até recentemente.

A hipótese vem em três versões, que variam em suas definições do que constitui toda a informação. A versão fraca da HME afirma que as informações sobre preços e retornos dos ativos no passado são inúteis para prever o que acontecerá no futuro. Em outras palavras, não existem padrões nos preços dos ativos e é impossível obter retorno acima do mercado utilizando, por exemplo, análise técnica. A versão semi-forte expande o conjunto de informações ao incluir, além dos preços passados, toda a informação pública disponível como, por exemplo, as informações dos balanços das empresas e sobre a economia em geral. Finalmente, a versão forte implica que não é possível, nem aos que possuem informação privilegiada, ganhar do mercado.

A HME foi criticada academicamente devido a existência de várias anomalias financeiras (ou ineficiências no mercado) como o efeito tamanho (ver lista no final do texto), o efeito de valor relativo e o efeito momentum ou de inércia. Além disso, a existência de bolhas nos preços dos ativos, como a da internet no final dos anos 1990 e a mais recente, no mercado imobiliário, também aponta para falhas no paradigma do mercado eficiente, já que durante uma bolha, investidores atuam sem levar em conta o valor fundamental, mas sim o aumento nos preços de mercado. Neste caso, um aumento no preço hoje sinaliza um aumento no futuro, claramente contrariando a HME.

A alternativa mais proeminente é a das finanças comportamentais (ou behavioristas). Ao invés de assumir um mundo povoado por agentes econômicos racionais, que tem acesso às mesmas informações e formam expectativas homogêneas em relação ao futuro, os behavioristas assumem que as decisões econômicas são tomadas por seres humanos, que processam a informação disponível de maneira falha e viesada e podem, em alguns casos, agir de maneira irracional. Vícios cognitivos como excesso de confiança e reações exageradas, aliados a aspectos como o comportamentos de manada (imitação das ações alheias ao invés de tomada individual de decisões com base na informação disponível) podem explicar várias anomalias no mercado, apesar de existir um perpétuo debate em cada caso sobre a natureza fundamental de uma anomalia. A possibilidade da existência de fatores de risco que não foram levados em consideração, fricções nos mercados financeiros, problemas de liquidez e custos de operação podem também explicar fenômenos mercadológicos.

Alguns tem culpado a HME (mais precisamente, a noção de mercados eficientes e racionais) até pela crise atual. Independentemente do que diz a HME sobre o funcionamento dos mercados, pode-se argumentar que a fé inabalável no mercado livre como alocador de recursos mostrou-se, com a crise atual, tão falha como a noção de uma economia planificada ou de um governo altamente intervencionista. Reconhecer o elemento humano nas decisões econômicas, e como ele pode se tornar irracionalmente exuberante, se deixado sem controle, é essencial para evitar problemas como os ocasionados pela crise do subprime americano.

efeito tamanho: retornos de ações de empresas pequenas superam os de empresas grandes, apesar de o risco (em termos de beta) das pequenas ser menor do que o das grandes

efeito de valor relativo (value effect): empresas com baixos múltiplos de valores fundamentais em relação a valor de mercado (value) tem retornos superiores aos de empresas com altos múltiplos múltiplos (growth)

efeito de momentum ou de inércia: ações que foram ganhadoras no curto prazo continuam a ganhar, e ações que foram perdedoras, a perder.

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