O custo do capitalismo (Robert J. Barbera)

costofcapitalism

  1. Longos períodos de crescimento econômico convencem as pessoas a aceitar riscos cada vez maiores

  2. Se muitas pessoas fazem apostas arriscadas, pequenas decepções podem ter consequências devastadoras

Os insights acima, que à luz da crise atual parecem óbvios, foram sumariamente ignorados pelos criadores de políticas econômicas, economistas e bancos centrais, que preferiam ver o mundo à luz do paradigma do livre mercado que se auto-regula. Esse é o coração de The Cost of Capitalism,  de Robert J. Barbera, festejado economista de Wall Street, vice-presidente e economista-chefe da ITG e que também já trabalhou para o governo americano. Um ótimo contador de histórias, Barbera conta-nos sobre as crises financeiras dos últimos 25 anos e sua influência na economia com clareza e em plain English, não Economês.

Influenciado por Hyman Minsky, um economista que se especializou no estudo das crises financeiras (à quem pertencem os insights acima), Barbera faz uma crítica feroz do pensamento econômico que vigorou nas últimas décadas. Segundo ele, esse pensamento levou a políticas econômicas míopes focadas apenas em controlar a inflação e o desemprego, deixando de lado os mercados financeiros que, como vimos pela terceira vez em menos de três décadas, é criador de crises na economia real. Apesar de o capitalismo ser o melhor sistema em termos de alocação de recursos, Barbera afirma, o custo deste sistema é o surgimento de crises financeiras periódicas.

As crises surgem devido à incerteza sobre o futuro. Como não sabemos o que vai acontecer no futuro, nós (e os economistas) fazemos previsões com base no passado. Quando passamos por um período de bonança, nossas perspectivas para o futuro se tornam otimistas demais, e começamos a aceitar riscos cada vez maiores. As duas últimas bolhas nos EUA (a da internet nos anos 1990 e a imobiliária nos últimos anos) aconteceram porque muitas pessoas seguiram essa idéia e arriscaram-se demais (no primeiro caso, comprando ações de empresas com preços injustificavelmente altos e, no segundo caso, comprando imóveis mais caros do que podiam pagar em hipotecas arriscadas que dependiam do aumento no próprio preço dos imóveis para funcionarem). Pequenas decepções (aumento na taxa de juros nos anos 1990 e queda nos preços dos imóveis em 2006) estouraram as bolhas e tiveram consequências devastadoras tanto nos mercados financeiros quanto na economia real. Nos dois casos, a demora do establishment em intervir antes resultou em intervenções ainda maiores depois, mostrando que a noção de que o Estado não deve intervir nos mercados financeiros é falha.

Barbera continua achando que o capitalismo é o melhor sistema para alocar os recursos através dos mercados financeiros. Mas a influência dos puristas do livre mercado transformou a noção da mão invisível do mercado na da mão infalível. Essa noção levou a políticas que se ocupam apenas com a inflação e os salários, enquanto as últimas recessões nos EUA foram todas causadas por bolhas ou crises no mercado financeiro. A solução, de acordo com ele, é que os bancos centrais devem ter a coragem e disciplina de se opor ao mercado e intervir quando bolhas começam a se formar. De quebra, cobra dos economistas teóricos modelos mais realistas, sugerindo-lhes que releiam Keynes, Minsky e reconheçam a natureza falha dos agentes econômicos, que nem sempre são tão racionais.

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