Viciado em juros altos

Que o Brasil é viciado em juros altos, todo mundo sabe. Num post anterior, reportei que aproximadamente 60% dos lucros do varejo no Brasil são oriundos de operações financeiras. A Carta Capital desta semana traz uma reportagem sobre os juros no Brasil, que revela uma estatística ainda mais impressionante: 53% do resultado de 503 empresas brasileiras negociadas na bolsa de valores no 1o trimestre deste ano saiu de operações bancárias e não de atividades produtivas. Isso significaria que viciados em juros são não só o varejo e os bancos, mas também a indústria e o comércio.

Sempre é preciso cuidado ao analisar os números. A revista não cita exatamente como Alberto Matias, professor de Economia da USP, chegou à essa estatística. A reportagem não revela se entre as 503 empresas incluem-se o setor de varejo e bancário. Além disso, não fica claro se a conta é feita em termos do resultado combinado das 503 empresas, ou se a porcentagem é calculada para cada empresa, e depois sumarizada (pela média, por exemplo).

Há potenciais vieses de alta no valor se a conta é feita em termos de resultados consolidados e se incluir o setor bancário, já que os resultados dos bancos podem ser muito grandes comparados à indústrias e comércios menores. O ideal seria calcular a porcentagem por setor. Também é preciso lembrar que o primeiro trimeste foi um de recessão, o que provavelmente afeta o cálculo (no comércio, por exemplo, se as vendas caem, uma parcela maior do resultado virá da operação financeira).

De qualquer maneira, é certo que juros menores não são do interesse nem dos bancos, nem das financeiras, nem do varejo, que vão pressionar para evitar sua queda. As notícias colocam a incerteza acerca da futura presidência do país (e também do BC ) como fatores na recente alta dos juros futuros (leia sobre o tema do “risco político” aqui). E o Brasil vai tocando o barco, de eleição em eleição, parando todo ano para o carnaval.

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Dólar em patamar mais baixo de 2009

Via Bloomberg. O dólar está próximo do patamar mais baixo do ano em relação a uma cesta de moedas, que inclui o euro, o yen e a libra esterlina. Com a crise, muitos investidores fugiram para a segurança do dólar, elevando o valor da moeda. A recente percepção nos mercados de que o pior da crise já passou dá fôlego para a moeda cair, já que mais investidores usam seus dólares para investir em outros ativos ou fazer carry trades (tomar capital em um país de juro baixo e investir em outro de juro mais alto).

O valor atual, próximo da mínima deste ano, também é próximo do patamar pré-crise (por volta de setembro de 2007). Em tempo: o dólar vale hoje cerca de R$1.87.

Fonte: Bloomberg. Clique para ampliar

Fonte: Bloomberg. Clique para ampliar

Momentum

Saiu no blog Buttonwood, da Economist, um post sobre o fenômeno do mercado financeiro conhecido como momentum, que é basicamente a tendência de preços que subiram continuarem subindo, ou seja, uma espécie de inércia nos preços. Esse fenômeno existe em horizontes de 6 a 12 meses no mercado de ações. Uma estratégia de momentum consiste em uma posição comprada nos papéis que mais ganharam nos últimos 6 meses (por ex.) e uma posição simultânea vendida nos papéis que mais perderam (ou seja, uma posição caixa zero).

Não se sabe ao certo o motivo da existência desse fenômeno; os trabalhos acadêmicos sugerem várias explicações conflituosas.  O hedge fund AQR publicou recentemente um paper resumindo a pesquisa sobre momentum e sugerindo a utilização da estratégia como um estilo de investimento inexplorado, capaz de melhorar a performance de portfolios. A empresa lançou um índice baseado no efeito de momentum.

Este foi um dos temas da minha tese de doutorado. Entretantanto, o que eu descobri (usando dados do mercado de ações dos EUA) foi que a estratégia de momentum funciona bem apenas durante alguns períodos, e em particular não deu retorno significante (ajustado ao risco) no período que vai do colapso da bolha da internet até o fim da minha amostra (2000 a 2006). Estou trabalhando na atualização do meu paper usando dados até 2009. Os resultados atualizados sugerem que 2007 e 2008 foram anos de forte inércia no mercado, e a estratégia deu retornos positivos devido à posição vendida nas ações ‘perdedoras’, cujos preços sofreram quedas enormes com crise financeira. Já em 2009, com a rápida reversão que vem ocorrendo no preço das ações, a estratégia tem apresentado um retorno negativo e de magnitude alta (-34% até maio, de acordo com dados do Prof. Kenneth French). O próprio índice de momentum lançado pela AQR mostra resultado parecido (-38% no ano).

O paper do AQR usa dados de 1975-2008. No meu paper, o período de 1975 a 1999 é justamente identificado com um período em que há forte inércia no mercado, ou seja, no qual a estratégia traz retorno positivo. O período anterior (1969-1975), por exemplo, é um período de baixa inércia no qual a estratégia não traz retorno significante. Baseado nos resultados do meu meu paper, no qual analisei um período muito mais longo (1927-2006), eu não confiaria na permanência deste efeito no mercado.

IBGE: trabalho começa a tomar fôlego após a crise (AE)

Via Agência Estado:

O gerente da pesquisa mensal de emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cimar Azeredo, observou que a taxa de desemprego apresentou em junho o primeiro ponto de inflexão do ano e a queda na taxa (de 8,8% em maio para 8,1% em junho) resultou sobretudo do aumento na geração de empregos e da queda no número de desocupados de um mês para o outro. “Foi o primeiro momento em que o mercado de trabalho começou a tomar fôlego após o início da crise”, avalia Azeredo.Segundo o gerente, “o mercado de trabalho sem dúvida mostrou um resultado favorável. Ainda não conseguimos nos equiparar aos avanços de 2008, o mercado não mostra o aquecimento do ano passado, mas mostrou recuperação em junho, deu uma arrancada no mês e agora resta aguardar os resultados dos próximos meses”, afirmou.

Um dos pontos de dúvida para os próximos meses, segundo Azeredo, está na população não economicamente ativa (sem trabalho e sem procurar emprego), que aumentou 0,6% em junho ante maio, para um total de 105 mil pessoas. De acordo com ele, essa alta pode ter relação com uma espera das pessoas por resposta a uma providência tomada de procura por emprego, mas também pode ser um sinal de aumento do desalento, ou seja, desistência da procura por uma vaga.

Rendimento médio real

O rendimento médio real (descontada a inflação) dos trabalhadores nas seis principais regiões metropolitanas do País ficou em R$ 1.331,57 no primeiro semestre de 2009, com alta de 4,1% ante igual semestre do ano passado, segundo o IBGE. Cimar Azeredo disse que a renda real neste primeiro semestre foi a maior da série da pesquisa, que teve início em 2002 mas só dispõe de resultados médios do primeiro semestre a partir de 2003. De acordo com Azeredo, a alta da renda em 2009 reflete o aumento do salário mínimo, o controle da inflação e, ainda, o aumento da formalidade no mercado de trabalho.

A taxa média de desemprego no primeiro semestre de 2009 ficou em 8,6%, ante 8,3% em igual semestre do ano passado, segundo dados apresentados por Azeredo. Em 2007, a taxa média do primeiro semestre havia sido de 9,9%. Segundo Azeredo, os dados do semestre revelam que “a crise mostrou efeitos no mercado de trabalho, que perdeu a aceleração que apresentava no ano passado, mas não chegou a reverter os ganhos de 2008”.

Real é a 3ª moeda mais volátil

Do Portal Exame:

Um levantamento realizado pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Depecon/Fiesp) mostra que o real foi a terceira moeda mais volátil do mundo entre setembro de 2008 e junho deste ano. Setembro foi o mês em que a crise mundial se aprofundou. Em um período mais longo, de 2003 a junho deste ano, a moeda brasileira pula para o primeiro lugar. “O real é o campeão da volatilidade tanto na valorização quanto na desvalorização”, diz o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da entidade, Roberto Giannetti da Fonseca. “Essas oscilações trazem enorme insegurança. Os agentes não conseguem fazer um planejamento adequado.”

Na avaliação de Giannetti, esse vaivém ocorre por causa do “viés financeiro que prevalece na economia brasileira hoje”. “Esse capital entra e sai do País com muita liberdade. A estabilidade cambial é tão ou mais importante do que a monetária e cabe ao BC (Banco Central) cuidar disso”, afirmou.

Índice Big Mac

A Economist publica há algum tempo o índice Big Mac, que mede a valorização de várias moedas de acordo com o princípio do poder de paridade de compra. A ideia é que as moedas deveriam flutuar próximas de um valor tal que os preços dos bens sejam os mesmos em cada lugar. No caso do Índice Big Mac, a comparação leva em consideração apenas o preço do sanduíche – que nos EUA é de U$3.57 –  o qual é comparado com os valores convertidos do sanduíche em cada país, de acordo com as taxas de câmbio.

Fonte: The Economist

Fonte: The Economist

O resultado: o Brasil tem o 6º Big Mac mais caro entre os países pesquisados, mostrando uma leve sobrevalorização do real (em janeiro deste ano, com o dólar mais forte em relação ao real, o Big Mac era mais barato no Brasil do que nos EUA). A China, com sua política de não deixar o Renminbi apreciar em relação ao dólar, para manter suas exportações baratas, tem um Big Mac que custa menos da metade do que nos EUA.

Spam simultâneo

Recebi hoje dois spams, ambos na linha do “você ficou milionário, entre em contato blá blá blá”. O curioso é que eu recebi as mensagens em dois endereços de e-mail simultaneamente (o meu pessoal e o meu antigo e-mail acadêmico). Eu nunca divulguei os dois e-mails conjuntamente, a não ser para uma agência de fomento do governo brasileiro.

Devo assumir uma de duas coisas. Ou o spammer, que me deu até seu telefone na África do Sul, possui uma avançada base de dados que possui os dois endereços, ou alguém vendeu uma lista com e-mails.

Um dos spams afirma que eu ganhei uma loteria patrocinada por ninguém menos que Bill Gates. Quem quiser contatar o escritório da Microsoft em Johanesburgo (!) para receber o prêmio, fique à vontade para contatar o Sr. Richard Rich (!!!), cujos contatos estão abaixo.

NAME MR. Richard Rich

TEL:+27780531122

FAX:+27865377269

E-Mail:richardrich@gala.net

Brazil vs California

Um amigo me passou este texto, no qual o autor (estadunidense) argumenta lula_arnoldque investir no Brasil é uma aposta mais segura do que investir na Califórnia. De fato, a California está sendo notícia por pagar suas contas emitindo notas promissórias (os IOUs, de “I owe you”, uma promessa de pagar numa data futura, veja aqui quem está sendo pago com dinheiro, e quem está sendo pago com as promissórias), já que o Governator não conseguiu chegar a um acordo para fechar seu monstruoso déficit orçamentário que está na faixa de U$26 bi (aprox. R$52 bi).

Empresas de rating como a S&P e Fitch já mudaram o status do Brasil para investment grade há algum tempo. A Moody’s deve fazer o mesmo ainda este ano, baseando-se no fato de o país estar aguentando a recessão atual com tranquilidade e também pelo apetite do governo brasileiro em diversificar nossas reservas e diminuir a exposição ao dólar. Enquanto isso, os títulos da California – o estado mais rico dos EUA – acabaram de ser rebaixados para BBB – a um passo de se tornarem junk bonds.

Pobre Mr. Schwarzenneger.