Ciência, mercado e vieses psicológicos

O que um cientista, um trader e um pesquisador na área de Finanças tem em comum?

Todos são afetados pelos mesmos tipos de vieses psicológicos. Seres humanos gostam de validação, ainda quando essa validação implica em ganhos pessoais. No caso de um cientista ou um pesquisador em Finanças, a validação de seus resultados por outros pesquisadores resulta em publicações e citações. No caso de um trader, ser validado significa estar certo sobre certo aspecto do Mercado. Em todos os casos, a validação pode vir acompanhada de benefícios financeiros.

Um artigo muito interessante no New Yorker apresenta uma visão fria e dura da Ciência. O artigo aborda o chamado “efeito de declínio” – o fato de que muitos resultados científicos estatisticamente significantes, publicados em jornais revisados por pares e replicados por outros cientistas, tendem a diminuir ou até desaparecer com o tempo. O efeito em si parece estar bem documentado, aparecendo em áreas diversas como psicologia, medicina e biologia evolucionária.

As causas deste fenômeno ainda não foram completamente definidas, mas dois fatores parecem ser muito importantes: os vieses psicológicos dos seres humanos, e a própria aleatoriedade da Natureza, que se recusa a se encaixar nos padrões bem-comportados dos testes estatísticos. É interessante (porém não deveria ser surpreendente) que até a Ciência, que se propõe a fornecer um padrão estrito da evidência necessária para validar uma teoria, seja afetada pelos vieses psicológicos. Meta-estudos (pesquisas a respeito de outras pesquisas) mostram que os jornais tendem a publicar desproporcionalmente resultados positivos. Estudos que não confirmam ou não encontram os efeitos desejados tendem a ficar no esquecimento. E mesmo quando um efeito é inicialmente comprovado, mas refutado por estudos subsequentes, ele ainda tende a ser citado como fato. Isso reflete os vieses psicológicos tanto dos cientistas que conduzem os estudos, como dos que os avaliam para publicação nos jornais acadêmicos (afinal, os dois grupos tem grande interseção).

Não pude deixar de fazer um paralelo com os estudos das chamadas anomalias no mercado financeiro – efeitos que aparentemente fornecem um “almoço grátis” para investidores astutos, como os efeitos de tamanho, valor, momento e reversão. Por exemplo, em um artigo recente, Khandani e Lo mostram que o desempenho de uma estratégia simples de reversão à média, que consiste em comprar as ações perdedoras e vender as ações ganhadoras, têm diminuído significantemente ao longo dos anos. Algo similar aconteceu com o efeito de tamanho – a tendência das ações de empresas pequenas, com baixo valor de mercado, apresentarem retornos maiores do que as ações de empresas grandes. Registrado por Banz em 1981, o efeito parece ter desaparecido em seguida (apesar de alguns pesquisadores afirmarem que ele nunca foi consistente em primeiro lugar, devido à efeitos de microestrutura e influências de outros efeitos).

Apesar da aparente similaridade, no mercado financeiro existe uma força óbvia responsável pela diminuição destes efeitos – a presença de arbitradores, que tentam explorar ao máximo qualquer possibilidade de lucro fácil. Mas o que dizer das anomalias que não foram reportadas em primeiro lugar? A área de Finanças é duplamente afetada pelos vieses psicológicos humanos. As movimentações dos preços refletem as expectativas dos players do mercado, com suas visões tão falhas quanto as de qualquer outra pessoa. Em seguida, os pesquisadores, com seus próprios vieses, tendem entender o comportamento dos mercados. Neste processo, resultados positivos são reportados com muitos mais frequência do que os negativos. O trabalho do acadêmico que detectou a existência de uma “anomalia” provavelmente tem mais chances de ser publicado do que o do que não encontrou significância nas suas análises. Além disso, existe o chamado efeito de data-snooping – milhares de pesquisadores, analisando os mesmos dados, encontrarão padrões estatisticamente significantes, mas que podem ter ocorrido por acaso.

Isso não significa que o método científico não seja a melhor maneira de aprender sobre a natureza ou o mercado. Mas, sendo aplicado por humanos, o método científico está sujeito a todo tipo de falha na cognição dos aplicadores.

 

 

 

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