Momentum: o que sobe…continua subindo

Momentum é a tendência, observada empiricamente, de os preços dos ativos continuarem a se movimentar em uma certa direção. Por exemplo, ações que subiram no passado recente (tipicamente 3 a 12 meses) tendem a continuar subindo no futuro (analogamente, ações que cairam tendem a continuar caindo). Este fenômeno é difícil de se explicar racionalmente com as teorias convencionais de finanças, pois de acordo com a hipótese do mercado eficiente*, as variações nos preços dos ativos no passado não deveriam ser úteis como preditoras dos preços no futuro. Por este motivo, tipicamente explica-se o fenômeno de momentum com algum argumento comportamental, por exemplo o de que os investidores não reagem de maneira correta às informações disponíveis no mercado.

O objetivo deste post é estudar se este efeito existe no mercado de ações brasileiro. Para isto, faremos simulações (backtests) de carteiras com rebalanceamento mensal, usando todas as ações que atendem a critérios mínimos de volume e liquidez, para eliminar ações ilíquidas que podem distorcer os resultados. Utilizaremos dois benchmarks: uma carteira igualmente ponderada com todas as ações disponíveis, e o índice IBOVESPA. Utilizaremos o período amostral de janeiro de 2005 até outubro de 2013, que inclui a crise financeira.

Montar uma carteira para explorar o fenômeno de momentum é bastante simples: a cada período, escolhemos um certo número de ações com os retornos mais altos em um determinado horizonte. Podemos pensar na estratégia como tendo dois parâmetros: o número de ações que queremos ter na carteiras, e o período no qual vamos calcular o retorno para ranquear as ações. Para esta simulação, vamos incluir na carteira, a cada mês, as 20 ações com o maior retorno nos últimos 6 meses. Esta carteira valerá durante 1 mês, após o qual recalcularemos os retornos de todas as ações e montaremos uma nova carteira. Os parâmetros escolhidos são arbitrários e podem ser modificados. Chamaremos esta estratégia de MOM20.

O gráfico abaixo mostra o retorno acumulado da estratégia MOM20 e, para comparação, da carteira igualmente ponderada (CIP), a qual consiste em dividir o capital igualmente entre as ações disponíveis, do IBOVESPA e do CDI. Notamos que a estratégia parece promissora, superando tanto a carteira buy-and-hold de todas as ações (CIP) e o índice IBOVESPA.

Retorno acumulado de estratégia de momentum, carteira igualmente ponderada, IBOVESPA e CDI

Retorno acumulado de estratégia de momentum, carteira igualmente ponderada, IBOVESPA e CDI

Apesar dos resultados promissores, a estratégia sofre bastante na crise de 2008, apresentando um drawdown acentuado. A tabela abaixo apresenta algumas estatística de desempenho (os números não incluem custos operacionais). O drawdown da estratégia, apesar de menos acentuado do que o da CIP ou IBOVESPA, ainda é da ordem de 50%, ou seja, durante o período da crise a estratégia chegou a ter uma perda de metade do capital acumulado. Apesar disto, os número confirmam que a estratégia MOM20 é superior à carteira buy and hold e ao IBOVESPA.

Statistics CIP MOM20 IBOVESPA Risk Free
CAGR (%) 14.69 21.44 8.6 11.84
Volatility (%) 23.99 23.7 29.12
Downside Vol. (%) 17.7 17.39 20.65
Sharpe Ratio 0.12 0.4 -0.11
Sortino Ratio 0.16 0.55 -0.16
Maximum Drawdown (%) 54.44 50.55 59.96
Worst Month (%) -20.72 -15.08 -25.19 0
Beta 0.79 0.71 1
Correlation Benchmark 0.96 0.87 1
% Positive Months 53.2 54.16 51.43 1
Average VaR (%) 3.18 3.2 3.86

Uma opção para tentar evitar perdas como as de 2008 é tentar utilizar algum filtro para diminuir a exposição em períodos de estresse no mercado. Uma regra comumente utilizada consiste em zerar a posição em uma ação quando o preço está abaixo da média móvel. Para aplicar isto no nível da carteira, vamos utilizar a seguinte lógica: no início de cada mês, escolhemos as 20 ações com maior retorno nos últimos 6 meses. Porém, se o preço de uma determinada ação estiver abaixo da média móvel, calculada também nos últimos 6 meses, iremos zerar a exposição naquela ação e investir o equivalente no CDI (ativo livre de risco). Portanto, enquanto a estratégia MOM20 tinha 100% de capital comprado em ações, a nova estratégia, que chamaremos de MOM20Rel, pode alocar qualquer valor entre 0 a 100% em ações, com o restante no CDI.

O gráfico abaixo apresenta os resultados. Notamos que a regra ajuda a controlar o drawdown máximo, aumentando o retorno acumulado total.

MOM20Rel

A tabela abaixo apresenta a comparação das duas estratégias de momentum. Notamos um aumento modesto no retorno anualizado, e uma diminuição também modesta na volatilidade, o que aumenta o índice de Sharpe da estratégia de 0.4 para 0.54. A diminuição na perda máxima (drawdown), no entanto, é sustancial: de 50% para 28%. Isto pode ser verificado também através do aumento no índice de Sortino, que leva em consideração apenas a volatilidade das perdas, e que aumenta de 0.55 para 0.72.

Statistics MOM20 MOM20Rel
CAGR (%) 21.44 22.86
Volatility (%) 23.7 20.42
Downside Vol. (%) 17.39 15.19
Sharpe Ratio 0.4 0.54
Sortino Ratio 0.55 0.72
Maximum Drawdown (%) 50.55 28.18
Worst Month (%) -15.08 -13.1
Beta 0.71 0.54
Correlation Benchmark 0.87 0.77
% Positive Months 54.16 54.52
Average VaR (%) 3.2 2.81

Podemos concluir que existem perpectivas de que o efeito de momentum existe e é explorável como estratégia de investimento no mercado de ações brasileiro. A exploração do efeito parece ser beneficiada pela utilização de uma regra de alocação tática relativa para cada ação. Os parâmetros escolhidos acima foram arbitrários, portanto sem dúvida as estratégias podem ser refinadas. Além disso, as estratégias de momentum podem ser facilmente utilizadas devido à simplicidade das regras. Uma possibilidade interessante é combinar esta estratégia com a estratégia de mínimização de volatilidade.

*note que a hipótese do mercado eficiente implica que todo e qualquer exercício de análise técnica é fútil para prever os preços futuros.

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Um blog sobre independência financeira

MrMoneyMustache é um excelente blog sobre independência financeira e frugalidade, que é leitura obrigatória para qualquer um interessado em se aposentar cedo.

Algumas ideias podem até parecer extremas a princípio. Por outro lado, vivemos em um mundo que às vezes faz pouco sentido e é legal ver um cara que teve coragem de mudar e ir na contra-mão do que é considerado “normal”, principalmente aqui nos EUA, onde se endividar para comprar bens de consumo é considerado absolutamente razoável.

Esta apresentação do MMM, chamada “Happiness vs Riches“, é bastante interessante.

Fundos de Investimento Imobiliário: performance em 2013

Sempre tive um pé atrás com fundos de investimento imobiliários (FIIs), principalmente porque são investimentos relativamente ilíquidos, se comparados ao mercado de ações. Apesar de o número de FIIs ter aumentado rapidamente nos últimos anos, poucos destes fundos alcançaram liquidez significativa.

O gráfico abaixo mostra o número de FIIs ativos por ano. Nota-se que após vários anos com um número muito reduzido de fundos, houve um grande aumento do número de FIIs a partir de 2008. Hoje há 26 FIIs ativos.

Número de FIIs ativos por ano

Número de FIIs ativos por ano

No entanto, quando analisamos o volume financeiro de operações, vemos que, como classe de ativos, estes fundos são historicamente pouco líquidos. Apenas a partir de 2012 podemos dizer que houve um aumento significativo da liquidez média destes fundos. Mesmo assim, nem todos os FIIs aumentaram em volume negociado: dos 26 FIIs ativos hoje, apenas 6 tiverem volume médio diário acima de R$250,000 no último ano.

Volume financeiro médio de FIIs por dia. Média de 1 ano.

Volume financeiro médio de FIIs por dia. Média de 1 ano.

Finalmente, em termos de performance, é inegável que os fundos tiveram boa performance nos últimos anos, principalmente comparados ao mercado de ações. O gráfico abaixo apresenta o retorno médio dos FIIs ativos por ano (independente do volume). Os FIIs ganharam do IBOVESPA a cada ano e só em 2012, valorizaram cerca de 30%, o que pode estar relacionado com o aumento da popularidade e demanda pelos ativos. O desempenho este ano, porém, começa a mostrar um desgaste, com desvalorização média de 8% até outubro.

Retorno médio de FIIs vs IBOVESPA

Retorno médio de FIIs vs IBOVESPA

 

Resumindo este pequeno estudo: os FIIs tem ganhado liquidez e podem ser uma boa alternativa como classe de ativos. Porém, depois de um 2012 muito bom em termos de performance, os FIIs estão tendo um ano ruim, justamente no momento em que estavam ganhando volume. Apesar disto, sem dúvida são uma opção interessante para diversificar uma carteira.

Estratégias de baixa volatilidade – Agosto/Setembro/Outubro 2013

Após um mês de julho bom para as estratégias de baixa volatilidade, agosto foi um mês em que as estratégias perderam para o IBOVESPA, que recuperou 1,77% no mês. Em setembro, no entanto, as estratégias de baixa vol tiveram bom desempenho e renderam por volta de 3%, contra 1% do IBOVESPA. No ano, o IBOVESPA apresenta queda de 20,1%, enquanto estas carteiras tiveram retornos entre -2,4% e 3,1%.

2013 IBOVESPA Variância Mínima Menor volatilidade Menor Beta
Janeiro -4.5% -1.5% 0.2% -0.9%
Fevereiro -4.9% -0.5% -1.0% -1.0%
Março -0.9% 0.1% 2.5% 0.0%
Abril 0.0% 0.9% 1.9% 1.0%
Maio -3.3% -0.2% 1.6% 1.5%
Junho -12.0% -5.9% -5.0% -7.3%
Julho 2.1% 3.7% 3.7% 3.0%
Agosto 1.8% -2.0% -3.7% -2.2%
Setembro 1.0% 3.1% 3.3% 3.0%
Outubro -0.6% 0.2% 0.0% -0.1%
YTD -20.1% -2.4% 3.1% -3.2%

Todas as carteiras acima são rebalanceadas mensalmente. Para comparação justa com o IBOVESPA, não são incluídos custos operacionais. As regras de construção das carteiras são as seguintes (note que mudei ligeiramente as regras de construção das carteiras com relação ao último post – os resultados não mudam significativamente):

  • Carteira de Variância Mínima – a carteira com o menos risco (volatilidade) possível, obtida através de um algoritmo de otimização (ver este post e também este artigo);
  • Carteira com ações de menor volatilidade – uma carteira que divide o capital igualmente entre as 20 ações com menor volatilidade;
  • Carteira com ações de menor beta- uma carteira que divide o capital igualmente entre as 20 ações com menor beta (medido com relação ao IBOVESPA).

O ano de 2013 segue bem ruim para o mercado de ações no Brasil, de maneira geral. As carteiras acima, no entanto, estão demonstrando um resultado muito superior ao IBOVESPA, com uma volatilidade muito menor. Se considerarmos o período desde janeiro de 2012, todas as estratégias acima apresentam retorno anualizado positivo, entre 8.8% a 10.7%, enquanto o retorno anualizado do IBOVESPA no mesmo período é de -5%:

Statistics MinVol LowVol LowBeta IBOV CDI
CAGR (%) 9.4 10.7 8.8 -5.0 8.1
Volatility (%) 11.0 12.6 11.2 21.2
Downside Vol. (%) 8.0 8.6 8.0 13.1
Sharpe Ratio 0.1 0.2 0.1 -0.6
Sortino Ratio 0.2 0.3 0.1 -1.0
Maximum Drawdown (%) 13.2 13.8 14.2 34.1
Worst Month (%) -5.9 -5.8 -7.3 -12.7 0.0
Beta 0.3 0.4 0.3 1.0
Correlation Benchmark 0.6 0.7 0.6 1.0
% Positive Months 51.4 52.5 53.8 46.6 1.0
Average VaR (%) 1.6 1.9 1.7 3.1

 

O gráfico abaixo apresenta o retorno acumulado das estratégias:

Retorno acumulado de estratégias de baixa volatilidade vs IBOVESPA e CDI. Período: jan/12 a Out/13

Retorno acumulado de estratégias de baixa volatilidade vs IBOVESPA e CDI. Período: jan/12 a Out/13