ETFs – Ações de baixa volatilidade

Comentei recentemente sobre a criação de um índice de ações baseado em uma carteira de volatilidade mínima global para o mercado brasileiro, e como seria bom se existisse um ETF seguindo este índice.

No mercado americano e internacional, já existem diversos ETFs deste tipo há alguns anos. Nos EUA, os dois ETFs de ações de baixa volatilidade mais populares são o SPLV (PowerShares S&P 500 Low Volatility), que tem aproximadamente U$ 6 bi em ativos, e o USMV (iShares MSCI USA Minimum Vol), que possui aproximadamente $10 bi em ativos. Os ETFs possuem diferenças importantes na metodologia, no universo de ações e no custo. Enquanto o SPLV é composto pelas 100 ações com menor volatilidade (desvio padrão de 252 dias) dentro do universo do S&P500, o USMV parte do universo com todas as ações dos EUA, e utiliza otimização para determinar a carteira com menor volatilidade. Os custos anuais: 0,25% ao ano (SPLV) e 0,15% ao ano (USMV).

Por causa destas diferenças, o SPLV possui maior alocação em ações de grandes empresas (já que o S&P 500, por definição, inclui as 500 maiores empresas) e tem menor diversificação do que o USMV. Para mim, o USMV é claramente a melhor opção: mais barato e mais diversificado.

O gráfico abaixo mostra o histórico do retorno total dos ETFs no último ano, e de um índice que representa o mercado americano. Conforme esperado, nos períodos de maior volatilidade, como o que temos passado desde o meio de 2015, ambos superam o retorno total do mercado. O mercado total perdeu aproximadamente 6% no último ano, enquanto os ETFs de baixa vol quanharam aproximadamente 3%, uma diferença notável. Em períodos de bull market, porém, a tendência é de estas estratégias ganharem menos do que mercado, já que carregam mais em ações com beta baixo.

US low vol etfs

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Dinheiro de helicóptero

Enquanto no Brasil as taxas de juros continuam altíssimas, nos países ricos ocorre o contrário. Diversos países possuem taxas de juros negativas há algum tempo. Ou seja, você paga pelo privilégio de emprestar dinheiro ao banco ou ao governo. Veja no gráfico abaixo as curvas de juros soberanos do Japão (vermelho), Reino Unido (laranja), Suíca (azul escuro), Alemanha (amarelo), Suécia (azul claro), EUA (verde) e Dinamarca (roxo). A linha branca é o zero. Vemos que, com exceção de EUA e Reino Unido, os demais países possuem taxas de juros soberanas negativas para diversas maturidades.

Curvas de juros soberanos, países ricos

Curvas de juros soberanos, países ricos

Os motivos são complexos, mas de uma forma geral podemos dizer que, após a crise de 2008, os bancos centrais se viram forçados a baixar os juros para estimular a economia. A premissa central é que o dinheiro mais barato estimularia o investimento e o consumo, gerando uma inflação saudável e “restartando” a economia. O problema é que a política monetária é um instrumento limitado, especialmente quando chegamos perto do zero. Os bancos centrais em diversos países (EUA, Reino Unido, Japão) então passaram a utilizar instrumentos monetários mais inovadores, como o chamado quantitative easing ou QE. Muitos no mercado alertaram que o QE era equivalente a imprimir dinheiro e que isto levaria o risco de hiperinflação. Porém, não só não houve aumento da inflação, como as economias continuaram deprimidas, algumas com deflação ou risco significante de deflação. Isto é esperado do ponto de vista do funcionamento operacional do QE, que basicamente é uma troca de ativos entre o banco central e o setor privado (o banco central retira títulos do setor privado e credita as contas dos participantes com reservas ou dinheiro eletrônico)*.  As reservas adicionais nas contas dos bancos não resultaram em aumentos significativos do crédito, uma vez que os bancos não decidem emprestar com base na quantidade de reservas, e sim com base no seu apetite ao risco e restrições de capital.

Isto nos traz à discussão que está ocorrendo agora, de utilizar o chamado helicopter money, uma ideia proposta originalmente por Milton Friedman. A ideia é que, se toda a população recebesse uma certa quantidade  de dinheiro, e (importante!) a expectativa da população fosse de que isto nunca mais ocorreria, as pessoas gastariam esse dinheiro inesperado, gerando um aumento na demanda. Esta ideia parece maluca, mas está sendo discutida de maneira séria em vários veículos (Financial Times, Economist, Bloomberg) e por economistas famosos como Paul Krugman.

HelicopterMoneyA ideia é simples, porém não há consenso sobre como ela poderia ser implementada (a alternativa mais razoável parece ser através de uma redução ou rebate em algum imposto). Porém, como coloca Krugman, é impossível saber quais seriam as expectativas ao testar esta política sem precedentes.

A conclusão a que chego: ainda não vimos o fim da crise que começou em 2008, e a ideia de usar um mecanismo como o helicopter money coloca sérias dúvidas sobre o funcionamento da economia mundial, e sobre a eficácia da política monetária de maneira geral.

Em tempo, para quem ficou curioso, veja abaixo o gráfico das curvas de juros, com a inclusão do Brasil (curva em reais) 🙂

Curvas de juros soberanos, países ricos + Brasil

Curvas de juros soberanos, países ricos + Brasil

* Recomendo o blog do Cullen Roche e este artigo para entender a dinâmica do QE.

A valorização internacional do dólar é apenas uma parte (pequena) da história

Vi algumas fontes argumentando que a alta do dólar em relação ao real se deve à valorização internacional da moeda norte-americana.

O gráfico abaixo mostra a valorização do dólar versus uma cesta de várias moedas (Dollar Index da Bloomberg) e vs o real desde 2013 (normalizado para janeiro de 2013 = 100). A valorização internacional do dólar no período foi de 23%, enquanto a valorização contra o real foi de 94%. Uma conta de padeiro revela que 71% da desvalorização do real se deve não à valorização internacional do dólar, e sim à situação político-econômica do país, com uma aceleração notável desde meados de 2014. Note que a inflação em reais no período (IPCA) foi de 20%, ou seja, mesmo que a inflação no Brasil fosse descontada (afinal poderíamos argumentar que a inflação se deve em parte à alta internacional do dólar), ainda teríamos uma desvalorização real da moeda de 50%.

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Se olharmos apenas o período em que o movimento de alta acelerou (desde julho de 2014), a valorização internacional do dólar fica em 14%, enquanto a valorização frente ao real foi de 63%.

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Logo a valorização internacional do dólar é apenas uma parte (pequena) da história.

Entrevista com Mohamed El-Erian

Entrevista interessante com El-Erian, ex-CEO/CIO da Pimco. El-Erian Acredita que estamos próximos de uma bolha nos mercados deenvolvidos, devido às ações dos bancos centrais nos países desenvolvidos:

Q. Where is your money? Stocks? Treasuries? Bonds?

A. It is mostly concentrated in cash. That’s not great, given that it gets eaten up by inflation. But I think most asset prices have been pushed by central banks to very elevated levels.

Q. So we’re nearing a bubble?

A. Go back to central banks. Central banks look at growth, at employment, at wages. They are too low. They don’t have the instruments they need, but they feel obliged to do something. So they artificially lift asset prices by maintaining zero interest rates and by using their balance sheet to buy assets.

Why? Because they hope that they will trigger what’s called the wealth effect. That you will open your 401k, see it has gone up in price, and you’ll spend. And that companies will see their shares are going up and they will be more willing to invest. But there is a massive gap right now between asset prices and fundamentals.

Análise Técnica – teste de 1928 a 2011

Um artigo recente  testa regras de análise técnica usando dados de ações do Dow Jones entre 1928 e 2011. O artigo testa diversas variantes de regras que utilizam médias móveis para definir sinais de compra e venda. A regra básica utilizada é o clássico cruzamento de duas médias móveis com janelas diferentes:

  • Comprar quando a média móvel rápida cruzar a média móvel lenta de baixo para cima
  • Vender quando a média móvel rápida cruzar a média móvel lenta de cima para baixo.

As janelas das médias móveis são variadas entre 1 e 250 dias. A estratégia básica é enriquecida com alguns filtros, como por exemplo operar apenas quando o sinal persistir por alguns dias. Além disso, são testadas variantes estáticas, ou seja, com parâmetros fixos, e dinâmicas, utilizando critérios para escolher entre as melhores estratégias em períodos passados, com atualização mensal. No total, são testadas 10800 estratégias diferentes, e cada uma é aplicada a todas as ações que fizeram parte do índice no período, considerando custos de operação.

As conclusões do artigo mostram que a rentabilidade ajustada ao risco das regras de análise técnica é restrita ao período entre a década de 1960 e 1980, e apenas quando não há restrições à venda das ações. Para investidores que não podem vender ações à descoberto, o retorno ajustado ao risco é estatisticamente igual a zero.

 

O beco sem saída de Wall Street

Opinião interessante de Felix Salmon no NYT sobre a (falta de) relevância, dos mercados de ações nos EUA. O ponto levantado por Felix é de que, atualmente, apenas as empresas mais antigas tem alguma vantagem em estarem listadas nas bolsas de lá. As empresas novas e dinâmicas, como Facebook, Twitter etc, tem captado recursos de maneira privada, e apenas os membros de uma elite super-rica tem condições de investir nelas. As empresas tem menos dores de cabeça, pois não precisam seguir as inúmeras regras ditadas pela SEC (a CVM dos EUA), e podem focar mais no negócio ao invés de focar em relatórios de resultados e reuniões com acionistas.

Ao mesmo tempo, o que é dito ser a função principal do mercado – alocar capital eficientemente entre os projetos na sociedade – não parece ser comprido. Empresas como Apple tem um caixa monstruoso – dinheiro que está essencialmente parado. Esse dinheiro poderia ser distribuído aos acionistas na forma de dividendos. Porém, isso geraria custos fiscais aos acionistas, e de captação para a empresa, caso precise levantar capital novamente (o que está longe de ser o caso da Apple) . O mercado de ações teria virado, nos EUA, um lugar onde especuladores e algoritmos se encontram, para decidir quem consegue obter mais lucro.

No Brasil, vejo uma situação ainda muito incipiente. Nossa economia está expandindo, e poucas empresas tem capital aberto, ou seja, ainda há muito espaço para o mercado de ações crescer. Além disso, emitir equity ainda parece ser uma maneira comparativamente barata de levantar capital por aqui, dadas as taxas de juros elevadas.

China vive a “maior bolha da história”?

Via Bloomberg. Enquanto no Senado dos EUA se discute como pressionar a China para deixar o yuan apreciar e Paul Krugman afirma que o medo de a China retaliar tal pressão parando de comprar títulos americanos é infundado, esses caras estão avisando que a China vive a maior bolha especulativa da história:

China is in the midst of “the greatest bubble in history,” said James Rickards, former general counsel of hedge fund Long-Term Capital Management LP.The Chinese central bank’s balance sheet resembles that of a hedge fund buying dollars and short-selling the yuan, said Rickards, now the senior managing director for market intelligence at McLean, Virginia-based consulting firm Omnis Inc.

“As I see it, it is the greatest bubble in history with the most massive misallocation of wealth,” Rickards said at the Asset Allocation Summit Asia 2010 organized by Terrapinn Pte in Hong Kong yesterday. China “is a bubble waiting to burst.”

Mais uma ótima do Krugman

Paul Krugman escreve sobre a recente enchida de bola que Obama deu aos banqueiros. Acerta na mosca, como de costume:

Again: the president compares Wall Street paychecks to baseball players. That’s really bad messaging: first, baseball players didn’t trigger a global economic collapse, and second, the baseball industry isn’t the beneficiary of a massive and continuing taxpayer bailout

I mean, how hard is it for the White House to understand that it’s a really, really bad idea to be saying nice things about bailed-out bankers, Goldman Sachs in particular?

China acusa EUA de fomentar carry trade gigante

Do FT. É um pouco o sujo falando do mal-lavado…A China acusa a política monetária estadunidense de manter os juros baixos e o dólar fraco, enquanto  mantém o yuan depreciado há anos para favorecer suas exportações. Por outro lado, se alguém pode reclamar são os chineses, maiores compradores de títulos do governo dos EUA.