Entrevista com Mohamed El-Erian

Entrevista interessante com El-Erian, ex-CEO/CIO da Pimco. El-Erian Acredita que estamos próximos de uma bolha nos mercados deenvolvidos, devido às ações dos bancos centrais nos países desenvolvidos:

Q. Where is your money? Stocks? Treasuries? Bonds?

A. It is mostly concentrated in cash. That’s not great, given that it gets eaten up by inflation. But I think most asset prices have been pushed by central banks to very elevated levels.

Q. So we’re nearing a bubble?

A. Go back to central banks. Central banks look at growth, at employment, at wages. They are too low. They don’t have the instruments they need, but they feel obliged to do something. So they artificially lift asset prices by maintaining zero interest rates and by using their balance sheet to buy assets.

Why? Because they hope that they will trigger what’s called the wealth effect. That you will open your 401k, see it has gone up in price, and you’ll spend. And that companies will see their shares are going up and they will be more willing to invest. But there is a massive gap right now between asset prices and fundamentals.

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Pirâmide do ECB/Grécia e outros

Neste link uma newsletter muito interessante da Maudin Economics. Particularmente interessante a explicação sobre o que Maudin (e outros) estão chamando de “esquema de Pirâmide” entre o ECB (European Central Bank) e os países europeus. Maudin toma como exemplo a Grécia. De maneira simplificada, funciona da seguinte maneira:

  • Para pagar o dinheiro que deve ao ECB, o governo da Grécia vende títulos (Treasury Bills), os quais são comprados, em sua maioria, por bancos domésticos gregos
  • Os bancos domésticos gregos recebem assistência emergencial de liquidez do Bank of Greece (BC grego), financiado pelo ECB, dando como colateral os títulos do governo grego
  • Com o dinheiro recebido, os bancos compram mais títulos do governo grego, que podem utilizar como colateral para emprestar mais dinheiro do ECB (através do Bank of Greece)

Ou seja, aparentemente os bancos domésticos da Grécia estão usando dinheiro do ECB para comprar títulos gregos, que servem de colateral para poderem continuar a tomar empréstimos do ECB. Ao mesmo tempo, o governo grego vende títulos para os bancos domésticos (financiados pelo ECB) para obter recursos e pagar o dinheiro que deve ao ECB.

Obviamente não é tão simples assim. Um esquema ajuda (clique para aumentar):

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leiam o texto, vale a pena.

 

Nota

A miragem dos hedge funds

Hedge funds são ótimos…se você é gestor de um! É o que mostra a pesquisa de Simon Lack. Mesmo ele sendo o autor de um livro chamado Hedge Fund Mirage, tendo a concordar com ele, no seguinte sentido: na média, os hedge funds (ou mesmo qualquer fundo ativo) underperforma benchmarks relativamente simples. O “na média” é extremamente importante; o investidor do Renaissance ou do Quantum Fund do George Soros provavelmente discorda da proposição de Simon Lack, mesmo pagando taxas altíssimas. Entretanto, o fato de que a maioria dos hedge funds cobra 2 + 20 (2% de administração ao ano, mais 20% de performance acima de algum benchmark) faz com que seja extremamente difícil que o investidor médio saia ganhando. Imagem

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O segundo gráfico é particularmente esclarecedor. Ano-a-ano, o investidor não parece se sair tão mal….até 2008, quando ele perde tudo o que já tinha ganhado, enquanto os hedge funds ainda coletam sua taxa.

O ponto é: é muito difícil encontrar um hedge fund que valha os custos! Prova disso é que um amigo meu, que manufatura retornos de hedge funds estatisticamente, está se dando muito bem!

Ciência, mercado e vieses psicológicos

O que um cientista, um trader e um pesquisador na área de Finanças tem em comum?

Todos são afetados pelos mesmos tipos de vieses psicológicos. Seres humanos gostam de validação, ainda quando essa validação implica em ganhos pessoais. No caso de um cientista ou um pesquisador em Finanças, a validação de seus resultados por outros pesquisadores resulta em publicações e citações. No caso de um trader, ser validado significa estar certo sobre certo aspecto do Mercado. Em todos os casos, a validação pode vir acompanhada de benefícios financeiros.

Um artigo muito interessante no New Yorker apresenta uma visão fria e dura da Ciência. O artigo aborda o chamado “efeito de declínio” – o fato de que muitos resultados científicos estatisticamente significantes, publicados em jornais revisados por pares e replicados por outros cientistas, tendem a diminuir ou até desaparecer com o tempo. O efeito em si parece estar bem documentado, aparecendo em áreas diversas como psicologia, medicina e biologia evolucionária.

As causas deste fenômeno ainda não foram completamente definidas, mas dois fatores parecem ser muito importantes: os vieses psicológicos dos seres humanos, e a própria aleatoriedade da Natureza, que se recusa a se encaixar nos padrões bem-comportados dos testes estatísticos. É interessante (porém não deveria ser surpreendente) que até a Ciência, que se propõe a fornecer um padrão estrito da evidência necessária para validar uma teoria, seja afetada pelos vieses psicológicos. Meta-estudos (pesquisas a respeito de outras pesquisas) mostram que os jornais tendem a publicar desproporcionalmente resultados positivos. Estudos que não confirmam ou não encontram os efeitos desejados tendem a ficar no esquecimento. E mesmo quando um efeito é inicialmente comprovado, mas refutado por estudos subsequentes, ele ainda tende a ser citado como fato. Isso reflete os vieses psicológicos tanto dos cientistas que conduzem os estudos, como dos que os avaliam para publicação nos jornais acadêmicos (afinal, os dois grupos tem grande interseção).

Não pude deixar de fazer um paralelo com os estudos das chamadas anomalias no mercado financeiro – efeitos que aparentemente fornecem um “almoço grátis” para investidores astutos, como os efeitos de tamanho, valor, momento e reversão. Por exemplo, em um artigo recente, Khandani e Lo mostram que o desempenho de uma estratégia simples de reversão à média, que consiste em comprar as ações perdedoras e vender as ações ganhadoras, têm diminuído significantemente ao longo dos anos. Algo similar aconteceu com o efeito de tamanho – a tendência das ações de empresas pequenas, com baixo valor de mercado, apresentarem retornos maiores do que as ações de empresas grandes. Registrado por Banz em 1981, o efeito parece ter desaparecido em seguida (apesar de alguns pesquisadores afirmarem que ele nunca foi consistente em primeiro lugar, devido à efeitos de microestrutura e influências de outros efeitos).

Apesar da aparente similaridade, no mercado financeiro existe uma força óbvia responsável pela diminuição destes efeitos – a presença de arbitradores, que tentam explorar ao máximo qualquer possibilidade de lucro fácil. Mas o que dizer das anomalias que não foram reportadas em primeiro lugar? A área de Finanças é duplamente afetada pelos vieses psicológicos humanos. As movimentações dos preços refletem as expectativas dos players do mercado, com suas visões tão falhas quanto as de qualquer outra pessoa. Em seguida, os pesquisadores, com seus próprios vieses, tendem entender o comportamento dos mercados. Neste processo, resultados positivos são reportados com muitos mais frequência do que os negativos. O trabalho do acadêmico que detectou a existência de uma “anomalia” provavelmente tem mais chances de ser publicado do que o do que não encontrou significância nas suas análises. Além disso, existe o chamado efeito de data-snooping – milhares de pesquisadores, analisando os mesmos dados, encontrarão padrões estatisticamente significantes, mas que podem ter ocorrido por acaso.

Isso não significa que o método científico não seja a melhor maneira de aprender sobre a natureza ou o mercado. Mas, sendo aplicado por humanos, o método científico está sujeito a todo tipo de falha na cognição dos aplicadores.

 

 

 

Metáforas, modelos e teorias

Segue um artigo muito interessante, entitulado Metaphors, Models & Theories. O autor distingue uma teoria, que é algo verdadeiro, expressão da verdadeira natureza de um fenômeno, com um modelo, uma construção ou representação simplificada de um objeto ou fenômeno.

Em Finanças, não existem leis imutáveis e verdadeiras como na Física (com a possível exceção da Lei do Preço Único, que diz que ativos iguais devem ter igual valor). Portanto restam os modelos, caricaturas ou metáforas do comportamento do mercado, o qual depende do comportamento humano. Usamos os modelos para mapear quantidades de um mundo complexo e multidimensional para um número menor de dimensões.

As dicas do artigo para evitar as armadilhas na modelagem financeira:

  • Evitar axiomatização (“Axiomatização é para Matemática. Finanças é sobre o mundo real. Todo axioma financeiro está errado; a questão prática é, quão errado, e ainda é possível fazer uso dele?”)
  • Modelos bons são vulgares de uma maneira sofisticada (“Os mercados são, por definição, vulgares, e portanto os modelos mais úteis são sabiamente vulgares, usando variáveis que todos usam … para descrever os fenômenos que observam. Construa modelos vulgares de maneira sofisticada”)
  • Varra a sujeira para debaixo do tapete, mas avise aos outros (“Devemos ser humildes quando tentarmos aplicar matemática aos mercados…O mundo dos mercados não corresponde às circunstâncias ideais assumidas em um modelo…O usuário deve saber o que foi assumido quando usa o modelo, e saber exatamente o que foi varridor para debaixo do tapete”)
  • Cuidado com a idolatria (“O maior perigo conceitual é imaginar que alguém possa escrever uma teoria que encapsule o comportamento humano e remova a dificuldade de pensar constantemente…Confundir um modelo com uma teoria é abraçar o desastre futuro, oriundo da crença de que seres humanos seguem regras matemáticas).

Vale a pena ler.

Adendo: O mesmo autor tem um livro que parece interessante, que está na minha fila.

China vive a “maior bolha da história”?

Via Bloomberg. Enquanto no Senado dos EUA se discute como pressionar a China para deixar o yuan apreciar e Paul Krugman afirma que o medo de a China retaliar tal pressão parando de comprar títulos americanos é infundado, esses caras estão avisando que a China vive a maior bolha especulativa da história:

China is in the midst of “the greatest bubble in history,” said James Rickards, former general counsel of hedge fund Long-Term Capital Management LP.The Chinese central bank’s balance sheet resembles that of a hedge fund buying dollars and short-selling the yuan, said Rickards, now the senior managing director for market intelligence at McLean, Virginia-based consulting firm Omnis Inc.

“As I see it, it is the greatest bubble in history with the most massive misallocation of wealth,” Rickards said at the Asset Allocation Summit Asia 2010 organized by Terrapinn Pte in Hong Kong yesterday. China “is a bubble waiting to burst.”

China acusa EUA de fomentar carry trade gigante

Do FT. É um pouco o sujo falando do mal-lavado…A China acusa a política monetária estadunidense de manter os juros baixos e o dólar fraco, enquanto  mantém o yuan depreciado há anos para favorecer suas exportações. Por outro lado, se alguém pode reclamar são os chineses, maiores compradores de títulos do governo dos EUA.

Roubini e o carry trade gigante

Artigo interessante do Roubini, vulgo Dr. Doom, sobre o momento atual. Ele argumenta que a taxa de juros baixíssima nos EUA, aliada às injeções de liquidez dos governos e ao enfraquecimento do dólar, estão possibilitando um carry trade gigantesco, no qual investidores tomam crédito nos EUA e compram ativos em outros países. Como o dólar vem enfraquecendo, os investidores estão emprestando a taxas efetivamente negativas, e ganhando também no trade cambial.

Com isso, ativos de risco (como ações, commodities etc) no mundo todo subiram muito e de maneira sincronizada, ou seja, a volatilidade dessas classes de ativos diminuiu muito, enquanto as suas correlações aumentaram. Individualmente, as classes de ativos parecem menos arriscadas do que antes, enquanto que no agregado o risco aumentou sobremaneira, já que diminuiu a diversificação entre as classes de ativos.

Roubini acredita que, cedo ou tarde, essa nova bolha irá estourar, com um rally no dólar (os carry traders fechando suas posições vendidas) e colapso dos ativos de risco no mundo todo.