Dinheiro de helicóptero

Enquanto no Brasil as taxas de juros continuam altíssimas, nos países ricos ocorre o contrário. Diversos países possuem taxas de juros negativas há algum tempo. Ou seja, você paga pelo privilégio de emprestar dinheiro ao banco ou ao governo. Veja no gráfico abaixo as curvas de juros soberanos do Japão (vermelho), Reino Unido (laranja), Suíca (azul escuro), Alemanha (amarelo), Suécia (azul claro), EUA (verde) e Dinamarca (roxo). A linha branca é o zero. Vemos que, com exceção de EUA e Reino Unido, os demais países possuem taxas de juros soberanas negativas para diversas maturidades.

Curvas de juros soberanos, países ricos

Curvas de juros soberanos, países ricos

Os motivos são complexos, mas de uma forma geral podemos dizer que, após a crise de 2008, os bancos centrais se viram forçados a baixar os juros para estimular a economia. A premissa central é que o dinheiro mais barato estimularia o investimento e o consumo, gerando uma inflação saudável e “restartando” a economia. O problema é que a política monetária é um instrumento limitado, especialmente quando chegamos perto do zero. Os bancos centrais em diversos países (EUA, Reino Unido, Japão) então passaram a utilizar instrumentos monetários mais inovadores, como o chamado quantitative easing ou QE. Muitos no mercado alertaram que o QE era equivalente a imprimir dinheiro e que isto levaria o risco de hiperinflação. Porém, não só não houve aumento da inflação, como as economias continuaram deprimidas, algumas com deflação ou risco significante de deflação. Isto é esperado do ponto de vista do funcionamento operacional do QE, que basicamente é uma troca de ativos entre o banco central e o setor privado (o banco central retira títulos do setor privado e credita as contas dos participantes com reservas ou dinheiro eletrônico)*.  As reservas adicionais nas contas dos bancos não resultaram em aumentos significativos do crédito, uma vez que os bancos não decidem emprestar com base na quantidade de reservas, e sim com base no seu apetite ao risco e restrições de capital.

Isto nos traz à discussão que está ocorrendo agora, de utilizar o chamado helicopter money, uma ideia proposta originalmente por Milton Friedman. A ideia é que, se toda a população recebesse uma certa quantidade  de dinheiro, e (importante!) a expectativa da população fosse de que isto nunca mais ocorreria, as pessoas gastariam esse dinheiro inesperado, gerando um aumento na demanda. Esta ideia parece maluca, mas está sendo discutida de maneira séria em vários veículos (Financial Times, Economist, Bloomberg) e por economistas famosos como Paul Krugman.

HelicopterMoneyA ideia é simples, porém não há consenso sobre como ela poderia ser implementada (a alternativa mais razoável parece ser através de uma redução ou rebate em algum imposto). Porém, como coloca Krugman, é impossível saber quais seriam as expectativas ao testar esta política sem precedentes.

A conclusão a que chego: ainda não vimos o fim da crise que começou em 2008, e a ideia de usar um mecanismo como o helicopter money coloca sérias dúvidas sobre o funcionamento da economia mundial, e sobre a eficácia da política monetária de maneira geral.

Em tempo, para quem ficou curioso, veja abaixo o gráfico das curvas de juros, com a inclusão do Brasil (curva em reais) 🙂

Curvas de juros soberanos, países ricos + Brasil

Curvas de juros soberanos, países ricos + Brasil

* Recomendo o blog do Cullen Roche e este artigo para entender a dinâmica do QE.

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Pirâmide do ECB/Grécia e outros

Neste link uma newsletter muito interessante da Maudin Economics. Particularmente interessante a explicação sobre o que Maudin (e outros) estão chamando de “esquema de Pirâmide” entre o ECB (European Central Bank) e os países europeus. Maudin toma como exemplo a Grécia. De maneira simplificada, funciona da seguinte maneira:

  • Para pagar o dinheiro que deve ao ECB, o governo da Grécia vende títulos (Treasury Bills), os quais são comprados, em sua maioria, por bancos domésticos gregos
  • Os bancos domésticos gregos recebem assistência emergencial de liquidez do Bank of Greece (BC grego), financiado pelo ECB, dando como colateral os títulos do governo grego
  • Com o dinheiro recebido, os bancos compram mais títulos do governo grego, que podem utilizar como colateral para emprestar mais dinheiro do ECB (através do Bank of Greece)

Ou seja, aparentemente os bancos domésticos da Grécia estão usando dinheiro do ECB para comprar títulos gregos, que servem de colateral para poderem continuar a tomar empréstimos do ECB. Ao mesmo tempo, o governo grego vende títulos para os bancos domésticos (financiados pelo ECB) para obter recursos e pagar o dinheiro que deve ao ECB.

Obviamente não é tão simples assim. Um esquema ajuda (clique para aumentar):

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leiam o texto, vale a pena.

 

China vive a “maior bolha da história”?

Via Bloomberg. Enquanto no Senado dos EUA se discute como pressionar a China para deixar o yuan apreciar e Paul Krugman afirma que o medo de a China retaliar tal pressão parando de comprar títulos americanos é infundado, esses caras estão avisando que a China vive a maior bolha especulativa da história:

China is in the midst of “the greatest bubble in history,” said James Rickards, former general counsel of hedge fund Long-Term Capital Management LP.The Chinese central bank’s balance sheet resembles that of a hedge fund buying dollars and short-selling the yuan, said Rickards, now the senior managing director for market intelligence at McLean, Virginia-based consulting firm Omnis Inc.

“As I see it, it is the greatest bubble in history with the most massive misallocation of wealth,” Rickards said at the Asset Allocation Summit Asia 2010 organized by Terrapinn Pte in Hong Kong yesterday. China “is a bubble waiting to burst.”

China acusa EUA de fomentar carry trade gigante

Do FT. É um pouco o sujo falando do mal-lavado…A China acusa a política monetária estadunidense de manter os juros baixos e o dólar fraco, enquanto  mantém o yuan depreciado há anos para favorecer suas exportações. Por outro lado, se alguém pode reclamar são os chineses, maiores compradores de títulos do governo dos EUA.

Keynesianismo militar

Do democrata Barney Frank, sobre os republicanos que reclamaram do déficit americano mas querem manter os fundos para o F-22, um projeto de 2 bilhões de dólares para um caça que nunca voou:

These arguments will come from the very people who denied that the economic recovery plan created any jobs. We have a very odd economic philosophy in Washington: It’s called weaponized Keynesianism. It is the view that the government does not create jobs when it funds the building of bridges or important research or retrains workers, but when it builds airplanes that are never going to be used in combat, that is of course economic salvation.

Via Blog do Paul Krugman, via Think Progress.

Blog da Petrobras

A Petrobras, acossada pela mídia, que faz da CPI o tema político du jour (alternadamente com a mudança nas regras da poupança e o inexistente e ectoplasmático terceiro mandato), decidiu se defender em um blog. Alguns jornais reclamaram porque a empresa publicou no blog as perguntas enviadas pelos jornalistas, juntamente com as respectivas respostas (exemplo aqui). A ANJ (Associação Nacional de Jornais) acusou a Petrobras de intimidar os jornais. Parece que ficaram incomodados com a transparência, o que mostra a extensão do anacronismo da mídia brasileira.O Globo afirmou que a Petrobras criou o blog “para vazar informações obtidas pelos jornalistas” e que o blog “quebrou a confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa da estatal”. Ora, quem pergunta é porque quer saber. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, entrevistado no Roda Vida hoje, explicou o motivo de tamanha transparência.

Em um dos posts, a Petrobras esclarece que um erro publicado pela Folha de São Paulo não foi corrigido, e admoesta o jornal, relembrando-o de que

A liberdade de expressão e o direito a opinião pressupõem responsabilidades. É a velha máxima: quanto maior o poder, maior a responsabilidade.

Independentemente de qualquer apuração desta ou qualquer outra CPI, é ótima a iniciativa da empresa. Fica muito mais difícil manipular a informação quando ela está disponível, sem cortes, para todos. O establishment da mídia vai reclamar e choramingar, mas tomaram um puxão de orelha doído e merecido.

Um belo resumão da coisa toda está aqui.