A valorização internacional do dólar é apenas uma parte (pequena) da história

Vi algumas fontes argumentando que a alta do dólar em relação ao real se deve à valorização internacional da moeda norte-americana.

O gráfico abaixo mostra a valorização do dólar versus uma cesta de várias moedas (Dollar Index da Bloomberg) e vs o real desde 2013 (normalizado para janeiro de 2013 = 100). A valorização internacional do dólar no período foi de 23%, enquanto a valorização contra o real foi de 94%. Uma conta de padeiro revela que 71% da desvalorização do real se deve não à valorização internacional do dólar, e sim à situação político-econômica do país, com uma aceleração notável desde meados de 2014. Note que a inflação em reais no período (IPCA) foi de 20%, ou seja, mesmo que a inflação no Brasil fosse descontada (afinal poderíamos argumentar que a inflação se deve em parte à alta internacional do dólar), ainda teríamos uma desvalorização real da moeda de 50%.

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Se olharmos apenas o período em que o movimento de alta acelerou (desde julho de 2014), a valorização internacional do dólar fica em 14%, enquanto a valorização frente ao real foi de 63%.

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Logo a valorização internacional do dólar é apenas uma parte (pequena) da história.

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Todas as ações da Bovespa ordenadas por volatilidade

Este post é uma atualização de um outro que postei há muito tempo. A tabela abaixo contém todas as ações da BMF Bovespa, ordenadas por volatilidade. Foram utilizados alguns filtros, a saber: janela mínima de 2 anos, volume médio superior a R$500k por dia e operações em pelo menos 90% dos pregões.

Ticker Nome Setor Volatilidade Beta Retorno 1 mês Retorno 1 ano
WEGE3 WEG ON Bens Industriais 18.88% 0.15 9.84% 48.23%
CTIP3 CETIP ON Financeiro e Outros 20.97% 0.49 5.20% 16.83%
ABEV3 AMBEV SA ON Consumo não Cíclico 21.92% 0.54 5.86% 29.97%
CGAS5 COMGAS PNA Utilidade Pública 21.99% 0.26 -7.93% -10.32%
PCAR4 PACUCAR-CBDPN Consumo não Cíclico 22.92% 0.58 -15.27% -32.75%
EQTL3 EQUATORIAL ON Utilidade Pública 23.40% 0.48 8.70% 44.47%
UGPA3 ULTRAPAR ON Financeiro e Outros 23.44% 0.71 -2.24% 27.75%
HYPE3 HYPERMARCAS ON Consumo não Cíclico 23.75% 0.64 -3.07% 10.73%
MDIA3 MDIASBRANCOON Consumo não Cíclico 23.92% 0.35 -5.35% -17.25%
BRFS3 BRF FOODS ON Consumo não Cíclico 24.15% 0.5 3.55% 26.94%
ODPV3 ODONTOPREV ON Consumo não Cíclico 24.77% 0.25 -0.54% 17.41%
CIEL3 CIELO ON Financeiro e Outros 25.11% 0.49 6.66% 19.98%
VIVT4 TELEF BRASILPN Telecomunicações 25.54% 0.52 1.65% 6.96%
COCE5 COELCE PNA Utilidade Pública 25.56% 0.34 -5.68% 17.56%
GUAR3 GUARARAPES ON Consumo Cíclico 25.63% 0.36 -10.72% -41.73%
TBLE3 TRACTEBEL ON Utilidade Pública 26.24% 0.66 6.68% 11.18%
LAME4 LOJAS AMERICPN Consumo Cíclico 26.43% 0.74 6.70% 26.81%
PSSA3 PORTO SEGUROON Financeiro e Outros 26.91% 0.46 13.62% 32.67%
RENT3 LOCALIZA ON Consumo Cíclico 27.07% 0.7 -9.00% -18.62%
TRPL4 TRAN PAULISTPN Utilidade Pública 27.07% 0.47 -1.37% 37.58%
KLBN4 KLABIN S/A PN Materiais Básicos 27.29% 0.38 -1.05% 69.28%
ITUB3 ITAUUNIBANCOON ED Financeiro e Outros 27.48% 0.9 4.02% 7.28%
UNIP6 UNIPAR PNB Materiais Básicos 27.51% 0.29 1.03% 8.59%
GETI3 AES TIETE ON Utilidade Pública 27.62% 0.42 4.02% 10.27%
EMBR3 EMBRAER ON Bens Industriais 27.64% 0.18 -2.42% 9.97%
LAME3 LOJAS AMERIC ON Consumo Cíclico 27.89% 0.67 6.06% 14.60%
MULT3 MULTIPLAN ON Financeiro e Outros 27.93% 0.75 2.63% -8.49%
TUPY3 TUPY ON Bens Industriais 28.29% 0.27 5.60% -10.63%
ALPA4 ALPARGATAS PN Consumo Cíclico 28.31% 0.49 -6.33% -24.47%
CRUZ3 SOUZA CRUZ ON Consumo não Cíclico 28.33% 0.56 -0.33% 12.59%
SSBR3 SIERRABRASILON Financeiro e Outros 28.35% 0.35 -7.59% -0.87%
LREN3 LOJAS RENNERON INT Consumo Cíclico 28.40% 0.75 3.51% 60.16%
VLID3 VALID ON Bens Industriais 28.46% 0.38 5.15% 34.43%
CYRE3 CYRELA REALTON Construção e Transporte 28.68% 0.83 -0.73% -28.82%
ITSA4 ITAUSA PN Financeiro e Outros 29.07% 1.06 3.82% 12.21%
TOTS3 TOTVS ON Tecnologia da Informação 29.16% 0.34 1.08% 4.72%
FLRY3 FLEURY ON Consumo não Cíclico 29.49% 0.29 -1.03% 15.31%
GETI4 AES TIETE PN Utilidade Pública 29.64% 0.47 3.63% -3.58%
GRND3 GRENDENE ON Consumo Cíclico 29.69% 0.5 1.54% 29.37%
ABCB4 ABC BRASIL PN Financeiro e Outros 29.71% 0.6 2.32% -14.17%
IGTA3 IGUATEMI ON Financeiro e Outros 29.74% 0.71 3.41% 11.10%
RADL3 RAIADROGASIL ON Consumo não Cíclico 29.75% 0.32 11.11% 126.14%
ALSC3 ALIANSCE ON Financeiro e Outros 29.76% 0.82 -6.83% -22.60%
SMTO3 SAO MARTINHOON Consumo não Cíclico 29.76% 0.51 -2.42% -5.71%
ITUB4 ITAUUNIBANCOPN ED Financeiro e Outros 29.88% 1.1 3.97% 5.00%
BEMA3 BEMATECH ON Tecnologia da Informação 29.95% 0.34 3.77% 2.48%
SUZB5 SUZANO PAPELPNA INT Materiais Básicos 30.05% 0.16 -1.68% 84.71%
MYPK3 IOCHP-MAXION ON Bens Industriais 30.12% 0.53 4.47% -32.30%
LINX3 LINX ON Tecnologia da Informação 30.26% 0.17 -3.29% -4.93%
CESP6 CESP PNB Utilidade Pública 30.60% 0.71 -1.58% -19.08%
SLCE3 SLC AGRICOLAON Consumo não Cíclico 31.61% 0.18 7.40% 1.74%
FIBR3 FIBRIA ON Materiais Básicos 31.62% 0.17 -1.25% 83.59%
DTEX3 DURATEX ON Materiais Básicos 31.68% 0.81 -4.96% -8.40%
MPLU3 MULTIPLUS ON Consumo Cíclico 31.68% 0.32 -2.07% 16.14%
JSLG3 JSL ON Construção e Transporte 31.95% 0.48 -14.39% -12.25%
NATU3 NATURA ON Consumo não Cíclico 32.16% 0.71 -0.77% -23.38%
EZTC3 EZTEC ON Construção e Transporte 32.29% 0.81 -5.70% -28.65%
BBDC4 BRADESCO PN EDJ Financeiro e Outros 32.51% 1.22 3.83% 1.72%
BICB4 BICBANCO PN Financeiro e Outros 32.63% 0.13 1.17% 0.26%
AMAR3 LOJAS MARISA ON Consumo Cíclico 32.73% 0.44 -15.04% -38.39%
ECOR3 ECORODOVIAS ON Construção e Transporte 32.79% 0.79 -7.97% -47.93%
BBDC3 BRADESCO ON EDJ Financeiro e Outros 32.82% 1.16 4.18% -3.57%
CSAN3 COSAN ON Consumo não Cíclico 32.82% 0.86 -9.19% -32.28%
CCRO3 CCR SA ON Construção e Transporte 33.02% 0.9 2.17% -13.52%
QUAL3 QUALICORP ON Consumo não Cíclico 33.07% 0.51 4.31% -16.73%
BEEF3 MINERVA ON Consumo não Cíclico 33.08% 0.51 3.37% -3.15%
CPFE3 CPFL ENERGIAON Utilidade Pública 33.44% 0.94 0.73% -5.30%
CPLE6 COPEL PNB Utilidade Pública 33.93% 0.89 7.45% 5.37%
RAPT4 RANDON PART PN Bens Industriais 34.02% 0.72 -1.49% -46.72%
MAGG3 MAGNESITA SAON Materiais Básicos 34.49% 0.37 -10.51% -41.46%
QGEP3 QGEP PART ON Petróleo 34.85% 0.65 -12.04% -27.92%
VALE5 VALE PNA Materiais Básicos 34.90% 0.82 -17.42% -44.24%
ENBR3 ENERGIAS BR ON Utilidade Pública 35.43% 0.81 6.88% 9.29%
LIGT3 LIGHT S/A ON Utilidade Pública 35.59% 0.77 -4.83% -24.04%
CPLE3 COPEL ON Utilidade Pública 35.65% 0.78 6.39% 4.04%
GGBR4 GERDAU PN Materiais Básicos 35.65% 0.75 -20.14% -51.48%
DASA3 DASA ON Consumo não Cíclico 35.67% 0.34 -2.24% -32.43%
SBSP3 SABESP ON Utilidade Pública 36.07% 0.85 1.33% -26.55%
TCSA3 TECNISA ON Construção e Transporte 36.13% 0.88 -8.13% -53.69%
HGTX3 CIA HERING ON Consumo Cíclico 36.17% 0.68 2.02% -35.79%
BVMF3 BMFBOVESPA ON Financeiro e Outros 36.20% 1.2 0.86% 0.31%
DIRR3 DIRECIONAL ON Construção e Transporte 36.21% 0.71 2.64% -52.02%
CMIG4 CEMIG PN Utilidade Pública 36.48% 0.87 -14.71% -31.79%
GGBR3 GERDAU ON Materiais Básicos 36.64% 0.7 -19.42% -49.98%
TIMP3 TIM PART S/AON Telecomunicações 36.90% 0.59 0.31% -19.47%
ARZZ3 AREZZO CO ON Consumo Cíclico 37.01% 0.57 -2.33% -17.38%
BBRK3 BR BROKERS ON Construção e Transporte 37.03% 0.67 -7.30% -25.54%
BRKM5 BRASKEM PNA Materiais Básicos 37.06% 0.59 -6.27% -5.69%
BRML3 BR MALLS PARON Financeiro e Outros 37.06% 1.13 -0.07% -23.29%
CMIG3 CEMIG ON Utilidade Pública 37.08% 0.77 -14.50% -31.49%
BRAP4 BRADESPAR PN Financeiro e Outros 37.29% 0.97 -15.93% -50.33%
EVEN3 EVEN ON Construção e Transporte 37.34% 1.03 -7.69% -48.61%
GOAU4 GERDAU MET PN Materiais Básicos 37.59% 0.82 -32.39% -70.64%
LPSB3 LOPES BRASILON Construção e Transporte 37.87% 0.49 -11.62% -42.31%
TGMA3 TEGMA ON Construção e Transporte 38.01% 0.43 -20.70% -44.39%
ARTR3 ARTERIS ON Construção e Transporte 38.03% 0.53 -3.78% -49.36%
HBOR3 HELBOR ON Construção e Transporte 38.16% 0.78 0% -62.84%
VALE3 VALE ON Materiais Básicos 38.54% 0.9 -15.88% -41.17%
LOGN3 LOG-IN ON Construção e Transporte 38.98% 0.38 -3.08% -49.36%
BRPR3 BR PROPERT ON Financeiro e Outros 39.45% 0.77 1.05% -22.59%
POMO4 MARCOPOLO PN Bens Industriais 39.73% 0.67 -8.29% -39.70%
JBSS3 JBS ON Consumo não Cíclico 39.85% 0.96 0.13% 98.18%
JHSF3 JHSF PART ON Construção e Transporte 39.88% 0.73 10.80% -49.94%
TECN3 TECHNOS ON Consumo Cíclico 40.62% 0.58 -8.15% -48.22%
ESTC3 ESTACIO PARTON Consumo Cíclico 40.95% 0.64 -14.08% -38.21%
MRVE3 MRV ON Construção e Transporte 41.42% 1.1 2.74% 16.62%
KEPL3 KEPLER WEBERON Bens Industriais 41.50% 0.29 14.47% -33.65%
BRSR6 BANRISUL PNB Financeiro e Outros 41.62% 0.77 -6.35% -23.39%
ELET6 ELETROBRAS PNB Utilidade Pública 41.69% 1.09 -8.90% -22.53%
LLIS3 LE LIS BLANCON Consumo Cíclico 41.71% 0.39 -22.01% -11.03%
KROT3 KROTON ON Consumo Cíclico 42.43% 0.77 -7.69% -23.69%
BBAS3 BRASIL ON Financeiro e Outros 42.77% 1.38 5.79% -5.94%
PFRM3 PROFARMA ON Consumo não Cíclico 43.13% 0.26 4.70% -51.98%
CSMG3 COPASA ON INT Utilidade Pública 45.00% 0.51 -4.66% -62.82%
PMAM3 PARANAPANEMAON Materiais Básicos 45.34% 0.61 -4.77% 33.92%
SLED4 SARAIVA LIVRPN Consumo Cíclico 45.48% 0.41 5.81% -68.81%
IDNT3 IDEIASNET ON Tecnologia da Informação 45.53% 0.23 -5.80% -50.79%
MILS3 MILLS ON Construção e Transporte 46.24% 0.59 -10.27% -69.84%
VAGR3 V-AGRO ON Consumo não Cíclico 46.33% 0.33 -3.49% -66.45%
ELET3 ELETROBRAS PNA Utilidade Pública 46.73% 1.31 -7.92% -10.96%
MGLU3 MAGAZ LUIZA ON Consumo Cíclico 46.87% 0.66 -21.30% -65.98%
USIM5 USIMINAS PNA Materiais Básicos 48.71% 0.93 -12.21% -53.94%
ELPL4 ELETROPAULO PN Utilidade Pública 49.17% 1.04 9.21% 56.36%
MRFG3 MARFRIG ON Consumo não Cíclico 49.22% 1.12 31.53% -13.06%
GFSA3 GAFISA ON Construção e Transporte 49.36% 1.34 6.09% -32.22%
TPIS3 TRIUNFO PARTON Construção e Transporte 49.72% 0.48 8.90% -39.17%
BPHA3 BR PHARMA ON Consumo não Cíclico 50.41% 0.27 -14.77% -76.99%
GOLL4 GOL PN Construção e Transporte 50.49% 1.18 -21.73% -55.84%
CSNA3 SID NACIONALON Materiais Básicos 51.05% 1.2 -24.58% -57.37%
PETR4 PETROBRAS PN Petróleo 51.97% 1.8 -9.24% -38.79%
PETR3 PETROBRAS ON Petróleo 52.05% 1.81 -6.55% -25.24%
FJTA4 FORJA TAURUSPN Bens Industriais 56.30% 0.22 -16.38% -82.97%
PDGR3 PDG REALT ON Construção e Transporte 61.27% 1.27 17.65% -69.81%
BTOW3 B2W VAREJO ON Consumo Cíclico 62.78% 0.65 -8.93% -30.78%
RSID3 ROSSI RESID ON Construção e Transporte 67.39% 1.46 -15.75% -85.09%
OIBR4 OI PN Telecomunicações 70.05% 0.97 -15.98% -65.96%
OIBR3 OI ON Telecomunicações 71.57% 1 -13.59% -66.23%
USIM3 USIMINAS ON Materiais Básicos 73.04% 0.89 -29.12% 46.63%
BRIN3 BR INSURANCEON Financeiro e Outros 73.67% 0.23 -9.86% -88.51%
RNAR3 RENAR ON Consumo não Cíclico 90.45% 0.45 9.59% 0%
MMXM3 MMX MINER ON Materiais Básicos 93.82% 0.85 -17.31% -74.40%
OGXP3 OGX PETROLEOON Petróleo 113.07% 1.25 0% -68.42%
JBDU4 J B DUARTE PN Financeiro e Outros 128.31% 0.45 -6.34% -86.23%
LUPA3 LUPATECH ON Bens Industriais 173.58% 0.74 -60% -95.61%

 

A arte de não prestar atenção no ruído

Compartilhando um post interessante no blog Motley Fool sobre a tendência dos investidores de focarem demais nos acontecimentos recentes. Este comportamento miópico está relacionado ao chamado “viés de recência“, o viés cognitivo que leva as pessoas a dar um peso demasiadamente grande para os acontecimentos recentes, em detrimento das tendências ou evidências de longo prazo*.

Obviamente estou falando de investidores cujo horizonte de investimento é relativamente longo. Para um day trader ou mesmo alguém que faz stock picking, faz todo o sentido focar no curto prazo. Já para um investidor passivo, que rebalanceia sua carteira com uma frequência baixa e cujo horizonte é de muitos anos ou décadas, que sentido faz checar o que acontece no mercado a cada minuto?  Este investidor está tentando se beneficiar de retornos que serão realizados ao longo de meses e anos. Se ele possui uma estratégia de investimento bem definida, basta segui-la. Isto não significa que não se deva prestar atenção ao que acontece no mercado. Mas se a carteira de investimento está alinhada com a estratégia e o perfil de risco do investidor, não é preciso saber o que acontece no mercado a cada minuto e o investidor deveria poder dormir tranquilamente, com a segurança de que sua carteira possui o nível de risco desejado.

Quando focamos muito nas notícias e movimentos recentes, surge uma tendência ou até uma tentação de mexer nos investimentos, já que há uma sensação de que precisamos reagir às notícias e eventos. Isto tende a ser ruim por vários motivos. Em primeiro lugar, quanto maior a movimentação nos investimentos, mais dinheiro perdemos com taxas e custos de operação. Em segundo lugar, já não é trivial definir uma estratégia de investimento e montar uma carteira para um horizonte longo. Quando tentamos “acertar” o que acontecerá baseado em pequenos sinais observados no mercado, a chance de acertar tende a zero em 99.99% dos casos. Finalmente, quando um investidor altera a composição de sua carteira baseado em acontecimentos muitas vezes irrelevantes, torna-se difícil avaliar a eficácia da estratégia, pois o resultado realizado não está alinhado com a estratégia.

A mídia financeira vende a ideia oposta: cada movimento do mercado deve ser analisado minuciosamente; as altas e baixas são explicadas por especialistas citando todos os fatores internos e externos que levaram aos resultados do dia. Há uma sensação de urgência, de que tudo o que está ocorrendo é importante, quando na verdade a maioria dos dias traz movimentos praticamente aleatórios. Hoje, por exemplo, o IBOVESPA fechou em baixa de 1,26%. O Valor nos explica que  “operadores relataram um movimento de realização de lucro liderado por investidores estrangeiros”. Todo dia haverá uma explicação nesta linha, com os principais “drivers” da movimentação diária. Estas explicações ex-post são, essencialmente, inúteis. O mercado de ações é, bem, um mercado. Para cada comprador, há um vendedor. Não houve “mais vendores ou bears” do que “compradores ou bulls” e a variação do dia é impossível de se prever com qualquer grau de precisão.

Resumindo, gostei do post do Motley e vai muito na linha do que acredito. Acho que nestes casos vale a máxima “menos é mais”: informação demais sobre o mercado pode não ser benéfica. Eu leio muito e acompanho o mercado financeiro diariamente, pois faz parte do meu trabalho. Porém, é importante desenvolver um “filtro” para separar o relevante do resto.

 

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*Quando há um desastre aéreo, por exemplo, muitas pessoas tornam-se receosas de viajar de avião, apesar de as estatísticas demonstrarem que este é um dos meios de transporte mais seguros.

IBOV vs IBrX – Qual o menos pior?

Os dois índices mais utilizados no mercado brasileiro são o IBOV e o IBrX, sendo que o IBOV é o mais antigo (existe desde 1968) e também o mais importante. Até recentemente, havia uma diferença conceitual grande entre os dois índices: o IBOV ponderava as ações com base na liquidez, enquanto o IBrX pondera as ações pelo valor de mercado. No início de 2014, a metodologia de cálculo do IBOV foi alterada e a ponderação passou a ser feita de maneira similar à do IBrX. Além disto, o IBrX procura conter 100 ações entre as mais negociadas, dentro de certo critérios de liquidez, enquanto o IBOV historicamente tem tido um número bem menor de papéis.

Como medidas amplas do desempenho do mercado de ações brasileiros, os índices são bastante utilizados como benchmarks para medir o desempenho relativo de fundos e carteiras de ações. Tenho usado sempre o IBOV nas comparações das estratégias que apresento aqui no blog.

É notável que, nestas comparações que faço aqui no blog, o IBOV costuma estar abaixo do CDI. Quando isto ocorre, significa que o investidor teria se dado melhor simplesmente deixando o dinheiro “parado” no banco, do que investimento no mercado de ações. Isto sem contar que o IBOV não leva em consideração nenhum custo, ou seja, na prática o resultado de um investidor que faz tracking do IBOV é pior ainda. Conforme venho mostrando aqui, é relativamente fácil superar o IBOV através de regras simples e mecânicas de seleção de ações (ver por exemplo este post).

O fato de o IBOV perder do CDI em períodos curtos, de 1 ou mesmo 2 anos, seria absolutamente normal. Porém, como as taxas de juros no Brasil são muito altas, os índices de ações perdem do ativo livre de risco (CDI) ao longo de períodos bem mais longos. O gráfico abaixo apresenta o retorno acumulado do IBOV (verde), IBrX (branco) e CDI (roxo), entre 1996 até o final de abril de 2015. Neste período de quase 20 anos, o IBOV expôs o investidor a um alto risco (volatilidade anual de 33%), porém entregou retorno inferior ao do CDI. Apesar disto, o retorno anual do IBOV no período ainda foi alto: 14.1%, o que significa que o capital inicial do investidor foi multiplado por um fator de 12. O IBrX ficou acima do CDI, com um retorno anualizado de 17.6% e uma volatilidade um pouco menor do que a do IBOV (29.6%). Entretanto, considerando o retorno ajustado ao risco (índice de Sharpe), o IBrX também não se sai bem: o índice de Sharpe foi próximo de 0.

IBOV CDI 1996-2005

IBOV IBrX CDI
CAGR 14.1% 17.6% 16.4%
Retorno total 1160.2% 2156.2% 1765.0%
Volatilidade 33.2% 29.6%
Sharpe -0.07 0.04

Pegando um período mais recente, de 2006 até abril de 2015, temos uma situação ainda pior. Tanto o IBOV como o IBrX perdem para o CDI. Os retornos anuais ficam em 5.5% (IBOV) e 8.4% (IBrX), contra 10.9% d CDI. Além disso, os índices estão em patamares similares aos de 2007 (IBOV) e 2008 (IBrX). Ou seja, temos um período entre 7 a 8 anos no qual o retorno total do mercado de ações, medido pelos índices, foi igual a zero, e um período de mais de 9 anos no qual o retorno foi abaixo do CDI.

IBOV CDI 2006-2005

IBOV IBrX CDI
CAGR 5.5% 8.4% 10.9%
Retorno total 65.1% 111.2% 162.1%
Volatilidade 28.7% 27.6%
Sharpe -0.38 -0.29

Algumas conclusões:

  • Com a mudança no cálculo de IBOV, a diferença entre os dois índices tornou-se bem menor. Porém, como podemos ver pelo primeiro gráfico, faz muita diferença considerar o IBrX como benchmark, principalmente quando consideramos resultados (históricos ou de backtests) de períodos longos.
  • O fato de a taxa básica de juros no Brasil ser tão alta, especialmente nos períodos mais antigos, torna a comparação entre ativos de risco e o ativo livre de risco difícil no nosso mercado.
  • Mesmo assim, existem estratégias simples para investir em ações, com critérios mecânicos para selecionar as ações, que permitem obter um retorno no mercado de ativos de risco compatível com o risco tomado.
  • Já demorou para lançarem um ETF utilizando alguma destas estratégias!

Ações de maior e menor risco da BM&F BOVESPA

Aproveitando o embalo do post anterior, seguem as 10 ações com maior e menor volatilidade da BOVESPA em 19 de junho de 2013. Em tempo, nos últimos 20 dias úteis, apenas 6 ações com liquidez razoável tiveram retorno positivo: Embraer (EMBR3), Fibria (FIBR3), Multiplus (MPLUS3), IOCHP-MAXION (MYPK3), Suzano (SUZB5) e Minerva (BEEF3).

 

10 ações com menor volatilidade

Table10LowestVolsJun2013

10 ações com maior volatilidade

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Viciado em juros altos

Que o Brasil é viciado em juros altos, todo mundo sabe. Num post anterior, reportei que aproximadamente 60% dos lucros do varejo no Brasil são oriundos de operações financeiras. A Carta Capital desta semana traz uma reportagem sobre os juros no Brasil, que revela uma estatística ainda mais impressionante: 53% do resultado de 503 empresas brasileiras negociadas na bolsa de valores no 1o trimestre deste ano saiu de operações bancárias e não de atividades produtivas. Isso significaria que viciados em juros são não só o varejo e os bancos, mas também a indústria e o comércio.

Sempre é preciso cuidado ao analisar os números. A revista não cita exatamente como Alberto Matias, professor de Economia da USP, chegou à essa estatística. A reportagem não revela se entre as 503 empresas incluem-se o setor de varejo e bancário. Além disso, não fica claro se a conta é feita em termos do resultado combinado das 503 empresas, ou se a porcentagem é calculada para cada empresa, e depois sumarizada (pela média, por exemplo).

Há potenciais vieses de alta no valor se a conta é feita em termos de resultados consolidados e se incluir o setor bancário, já que os resultados dos bancos podem ser muito grandes comparados à indústrias e comércios menores. O ideal seria calcular a porcentagem por setor. Também é preciso lembrar que o primeiro trimeste foi um de recessão, o que provavelmente afeta o cálculo (no comércio, por exemplo, se as vendas caem, uma parcela maior do resultado virá da operação financeira).

De qualquer maneira, é certo que juros menores não são do interesse nem dos bancos, nem das financeiras, nem do varejo, que vão pressionar para evitar sua queda. As notícias colocam a incerteza acerca da futura presidência do país (e também do BC ) como fatores na recente alta dos juros futuros (leia sobre o tema do “risco político” aqui). E o Brasil vai tocando o barco, de eleição em eleição, parando todo ano para o carnaval.

Brazil vs California

Um amigo me passou este texto, no qual o autor (estadunidense) argumenta lula_arnoldque investir no Brasil é uma aposta mais segura do que investir na Califórnia. De fato, a California está sendo notícia por pagar suas contas emitindo notas promissórias (os IOUs, de “I owe you”, uma promessa de pagar numa data futura, veja aqui quem está sendo pago com dinheiro, e quem está sendo pago com as promissórias), já que o Governator não conseguiu chegar a um acordo para fechar seu monstruoso déficit orçamentário que está na faixa de U$26 bi (aprox. R$52 bi).

Empresas de rating como a S&P e Fitch já mudaram o status do Brasil para investment grade há algum tempo. A Moody’s deve fazer o mesmo ainda este ano, baseando-se no fato de o país estar aguentando a recessão atual com tranquilidade e também pelo apetite do governo brasileiro em diversificar nossas reservas e diminuir a exposição ao dólar. Enquanto isso, os títulos da California – o estado mais rico dos EUA – acabaram de ser rebaixados para BBB – a um passo de se tornarem junk bonds.

Pobre Mr. Schwarzenneger.

Regulação e ritmo lento evitariam fraudes

No FT de hoje (via BBC Brasil):

O fraudulento esquema montado pelo banqueiro americano Bernard Madoff jamais teria ocorrido no Brasil por causa das regulamentações restritivas no sistema financeiro no país.

O Financial Times cita as regulamentações restritivas no sistema financeiro e o ritmo lento de mudanças do Brasil para explicar como o país conseguiu evitar o pior da crise

Quem nos dera que o nosso ‘ritmo lento’ previnisse também os esquemas fraudulentos dentro do governo…