A valorização internacional do dólar é apenas uma parte (pequena) da história

Vi algumas fontes argumentando que a alta do dólar em relação ao real se deve à valorização internacional da moeda norte-americana.

O gráfico abaixo mostra a valorização do dólar versus uma cesta de várias moedas (Dollar Index da Bloomberg) e vs o real desde 2013 (normalizado para janeiro de 2013 = 100). A valorização internacional do dólar no período foi de 23%, enquanto a valorização contra o real foi de 94%. Uma conta de padeiro revela que 71% da desvalorização do real se deve não à valorização internacional do dólar, e sim à situação político-econômica do país, com uma aceleração notável desde meados de 2014. Note que a inflação em reais no período (IPCA) foi de 20%, ou seja, mesmo que a inflação no Brasil fosse descontada (afinal poderíamos argumentar que a inflação se deve em parte à alta internacional do dólar), ainda teríamos uma desvalorização real da moeda de 50%.

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Se olharmos apenas o período em que o movimento de alta acelerou (desde julho de 2014), a valorização internacional do dólar fica em 14%, enquanto a valorização frente ao real foi de 63%.

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Logo a valorização internacional do dólar é apenas uma parte (pequena) da história.

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China acusa EUA de fomentar carry trade gigante

Do FT. É um pouco o sujo falando do mal-lavado…A China acusa a política monetária estadunidense de manter os juros baixos e o dólar fraco, enquanto  mantém o yuan depreciado há anos para favorecer suas exportações. Por outro lado, se alguém pode reclamar são os chineses, maiores compradores de títulos do governo dos EUA.

Roubini e o carry trade gigante

Artigo interessante do Roubini, vulgo Dr. Doom, sobre o momento atual. Ele argumenta que a taxa de juros baixíssima nos EUA, aliada às injeções de liquidez dos governos e ao enfraquecimento do dólar, estão possibilitando um carry trade gigantesco, no qual investidores tomam crédito nos EUA e compram ativos em outros países. Como o dólar vem enfraquecendo, os investidores estão emprestando a taxas efetivamente negativas, e ganhando também no trade cambial.

Com isso, ativos de risco (como ações, commodities etc) no mundo todo subiram muito e de maneira sincronizada, ou seja, a volatilidade dessas classes de ativos diminuiu muito, enquanto as suas correlações aumentaram. Individualmente, as classes de ativos parecem menos arriscadas do que antes, enquanto que no agregado o risco aumentou sobremaneira, já que diminuiu a diversificação entre as classes de ativos.

Roubini acredita que, cedo ou tarde, essa nova bolha irá estourar, com um rally no dólar (os carry traders fechando suas posições vendidas) e colapso dos ativos de risco no mundo todo.

Dólar em patamar mais baixo de 2009

Via Bloomberg. O dólar está próximo do patamar mais baixo do ano em relação a uma cesta de moedas, que inclui o euro, o yen e a libra esterlina. Com a crise, muitos investidores fugiram para a segurança do dólar, elevando o valor da moeda. A recente percepção nos mercados de que o pior da crise já passou dá fôlego para a moeda cair, já que mais investidores usam seus dólares para investir em outros ativos ou fazer carry trades (tomar capital em um país de juro baixo e investir em outro de juro mais alto).

O valor atual, próximo da mínima deste ano, também é próximo do patamar pré-crise (por volta de setembro de 2007). Em tempo: o dólar vale hoje cerca de R$1.87.

Fonte: Bloomberg. Clique para ampliar

Fonte: Bloomberg. Clique para ampliar

Brazil vs California

Um amigo me passou este texto, no qual o autor (estadunidense) argumenta lula_arnoldque investir no Brasil é uma aposta mais segura do que investir na Califórnia. De fato, a California está sendo notícia por pagar suas contas emitindo notas promissórias (os IOUs, de “I owe you”, uma promessa de pagar numa data futura, veja aqui quem está sendo pago com dinheiro, e quem está sendo pago com as promissórias), já que o Governator não conseguiu chegar a um acordo para fechar seu monstruoso déficit orçamentário que está na faixa de U$26 bi (aprox. R$52 bi).

Empresas de rating como a S&P e Fitch já mudaram o status do Brasil para investment grade há algum tempo. A Moody’s deve fazer o mesmo ainda este ano, baseando-se no fato de o país estar aguentando a recessão atual com tranquilidade e também pelo apetite do governo brasileiro em diversificar nossas reservas e diminuir a exposição ao dólar. Enquanto isso, os títulos da California – o estado mais rico dos EUA – acabaram de ser rebaixados para BBB – a um passo de se tornarem junk bonds.

Pobre Mr. Schwarzenneger.

Rápida da Economist

De acordo com o Butonwood, blog da Economist sobre mercados financeiros, demoraria 360 anos para um investidor dobrar seu capital investindo em depósitos de dólar. Enquanto os outros leitores que comentaram o post discutiram a relação risco-retorno de ações e FX, um outro leitor foi mais pragmático:

O dólar ainda vai estar por aí em 360 anos?

Muito boa :).

Comentário: Luiz Carlos Mendonça de Barros sobre os BRIC

Em sua coluna de hoje no caderno Dinheiro da Folha de São Paulo (que só pode ser lido por assinantes do UOL e do jornal impresso, motivo pelo qual não fiz o comentário online), entitulada “Afinal, o que une os BRICs?”, o autor destaca a importância econômica dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) no futuro como o traço que os uniria. Com efeito, ele nota que os emergentes, de modo geral, vão ceifar uma parcela grande do poder econômico hoje pertencente aos países ricos.

Barros nota que um dos obstáculos para que esse processo se acelere é a falta de condições para a criação de um sistema monetário internacional mais equilibrado. Nem a China, diz ele, tem interesse de dividir com o dólar o papel de moeda-reserva. Após essas observações ele diz

Não por outra razão, o ímpeto oportunista da delegação brasileira em criticar o dólar e seu papel no mundo hoje foi devidamente calado pelas lideranças chinesas presentes ao encontro [dos BRICs]

Além de uma caracterização negativa da delegação brasileira, a qual achei infundada e desnessária, Barros parece ter esquecido que foi o próprio presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, que criticou há meses as falhas do sistema monetário internacional e sugeriu a criação de uma moeda internacional. A declaração final do encontro dos BRIC não fez menção direta a qualquer movimento de busca por uma alternativa ao dólar. Aqui, vale lembrar que os chineses são os maiores detentores de títulos americanos e, portanto, são os maiores interessados em evitar volatilidade na moeda, que implica em volatilidade em suas reservas. Por que os chineses quereriam dar mais uma declaração, quando já está clara a posição deles em relação ao dólar? O episódio serve para lembrar que uma mundança no sistema monetário internacional é coisa de longo prazo.

Desdolarização? Sim, mas quando?

Um assunto que tem chamado a atenção na mídia é a proposta de substituição do dólar como moeda reserva. Apesar de muitos países provavelmente quererem uma alternativa, no momento ela simplesmente não existe. Hoje em Ecaterimburgo, na Rússia, os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) encontram-se pela primeira vez e a mudança de moeda no comércio entre os países está em pauta. No texto a seguir, um pouco da história de como o dólar se transformou na moeda-reserva, e como e por que isso pode mudar.

Como o dólar virou a moeda de reserva?

Em 1944, as nações aliadas se reuniram em Bretton Woods, New Hampshire, nos EUA, para definir e estabelecer as regras das relações comerciais e financeiras entre os países. Como o livre comércio entre os países depende da convertibilidade entre as moedas, a preocupação maior era a de estabilizar as taxas de câmbio, após as desastrosas tentativas com taxas flutuantes nos anos 1930. O sistema resultante, que levou o nome de Bretton Woods, atrelava as moedas internacionais ao dólar norte-americano, que por sua vez era convertível em ouro à taxa de 35 onças por dólar. O acordo também criou o FMI e o BIRD (hoje World Bank). Com o novo sistema, as taxas de câmbio era fixadas em relação ao dólar, mas podiam variar em uma estreita faixa. Assim, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo passou a usar o dólar como moeda de reserva.

O fim do atrelamento ao ouro…

Após o fim da Segunda Guerra, a Europa estava arruinada, enquanto a economia americana acumulava saldos positivos na balança comercial (exportava mais do que importava). Como as instituições internacionais FMI e BIRD não eram suficientemente grandes  para dar liquidez ao mercado internacional, os EUA promoveram diretamente a saída de dólares (propositadamente operando um déficit) para a reconstrução da Europa através do Plano Marshall. Com o saldo positivo do comércio com os países desenvolvidos, os EUA financiavam a reconstrução da economia europeia, que se tornaria o mercado consumidor de seus produtos.

Com o crescimento do comércio internacional, as reservas de ouro dos EUA tornaram-se pequenas em relação à quantidade de dólares existentes, o que gerou um desequilíbrio, já que havia um mercado aberto de ouro em Londres. Após uma década de medidas para tentar manter a paridade dólar-ouro, em 1971 Richard Nixon  unilateralmente decretou a inconvertibilidade do dólar para o ouro, o que ficou conhecido como “The Nixon Shock”.

…E a expansão dos EUA financiada pelo resto do mundo

Com o dólar como moeda-reserva, e sem o atrelamento ao ouro, os EUA podem, a princípio, imprimir quanto dinheiro quiserem (obviamente com o risco de a moeda perder valor e, claro, dependendo do apetite estrangeiro pelos seus títulos, o que depende de quão endividado o país esteja). Os países precisam ter reservas internacionais para honrar seus compromissos, e essas reservas são compostas, em grande parte, por títulos do governo estadunidense. Os bancos centrais detém hoje aproximadamente U$4 trilhões desses títulos. Essa compra de títulos ianques não reflete uma opção de investimento; os países não tem muita opção para reciclar seus dólares, já que, caso um país deixe de comprar os títulos, corre o risco de sua moeda desvalorizar-se contra o dólar e seus produtos tornarem-se pouco competitivos na exportação.

Esses ‘depósitos’ internacionais praticamente compulsórios têm financiado déficits orçamentários nos EUA nos últimos 30 anos (veja gráfico abaixo), e a expansão do maquinário político-financeiro-militar norte-americano no mundo todo (os EUA são o país que mais gasta com defesa no mundo, 45% do total mundial em 2007). Obviamente, é uma faca de dois gumes. No período que precedeu a crise atual, a compra de dólares pela China, por exemplo, favoreceu bastante as exportações deste país. O grande fluxo de capital internacional (principalmente da China) para os EUA impediu que as taxas de juros de longo prazo caíssem, apesar de sucessivos cortes pelo FED, e ajudou a prolongar o boom imobiliário norte-americano. Com casas mais valorizadas, os estadunidenses reajustavam suas hipotecas, usando o dinheiro que sobrava  para comprar bens de consumo, produzidos, em sua maioria, na China. Hoje, a China tem dólares demais e suas reservas são vulneráveis a desvalorizações na moeda.

Déficit/superavit nos EUA (%)

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(fonte: United State's Federal Outlay budget 1901-2006 for the Fiscal Year 2008)

A crise atual prenuncia o fim do dólar como moeda reserva?

Apesar dos déficits, os EUA continuaram com juros e impostos baixos nos últimos anos. E apesar de impor (através do FMI) medidas de austeridade nos países devedores (ainda frescas na memória do Brasil), os EUA não as têm implementado dentro de casa. Mas há sinais de stress em relação ao atual nível de endividamento norte-americano, como as altas nos juros de longo prazo, sinalizando preocupação dos investidores com inflação. Caso os EUA não apertem o cinto e comecem a poupar para tapar o buraco (ou pelo menos financiá-lo mais internamente,  o que parece ser o caso dos títulos emitidos recentemente), a possibilidade de uma desvalorização do dólar (e a necessidade de uma moeda-reserva alternativa) torna-se cada vez mais real (mais sobre o sufoco das nações ricas para livrarem-se de tanta dívida em matéria no The Economist).

Zhou Xiaochuan, governador do BC chinês, recentemente escreveu um artigo pedindo uma reformulação do sistema monetário internacional e a criação de uma moeda global a ser usada como reserva. O temor chinês é que, com um déficit orçamentário e de balança comercial, a política atual do FED de imprimir cada vez mais dinheiro cause uma desvalorização do dólar e, consequentemente, uma queda nas reservas chinesas. Uma possível mudança de moeda-reserva traria grandes riscos para os EUA, que teriam custos maiores para captar recursos, o que atrapalharia o crescimento econômico.

Qual seria a alternativa?

O Brasil já assinou acordos para que o comércio com a China seja realizado em renminbi e na reunião dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) hoje em Ecaterimburgo, a troca de moedas está sendo discutida. O assunto, entretanto, é muito mais urgente para os chineses do que para nós, já que a China detém nada menos do que 24% de todos os títulos americanos, o equivalente a U$740 bilhões (o Brasil detém algo próximo a 4% dos títulos, ou U$133 bi, ver tabela abaixo, disponível aqui).

Foreign owners of US Treasury Securities (January 2009)
Nation billions of dollars percentage
People’s Republic of China 739.6 24.07%
Japan 634.8 20.66%
Oil exporters 186.3 6.06%
Caribbean banking centers 176.6 5.75%
Brazil 133.5 4.35%
United Kingdom 124.2 4.04%
Russia 119.6 3.89%

No entanto, acordos isolados entre alguns países não afetam muito o status do dólar como moeda-reserva. A proposta dos chineses é transformar em moeda global os chamados Direitos Especiais de Saque, ou SDR (Special Drawing Rights). O SDR é uma moeda sintética criada pelo FMI em 1967 e hoje composta por uma cesta de moedas internacionais, a saber, o dólar estadunidense, o euro, o yen e a libra esterlina. Os SDRs, no entanto, só são válidos atualmente em transações com o FMI. Seria necessário que os países começassem a emitir títulos em SDR, para que houvesse liquidez nas transações.

A possível troca de moeda-reserva no âmbito global traz riscos grandes para o sistema financeiro internacional, e por isso sua criação deve ser feita com muito cuidado. Em particular, é uma decisão que deve ser tomada em conujnto por várias economias, para que contemple os interesses da comunidade internacional, e não só de um ou poucos países.