Fundos de Investimento Imobiliário: performance em 2013

Sempre tive um pé atrás com fundos de investimento imobiliários (FIIs), principalmente porque são investimentos relativamente ilíquidos, se comparados ao mercado de ações. Apesar de o número de FIIs ter aumentado rapidamente nos últimos anos, poucos destes fundos alcançaram liquidez significativa.

O gráfico abaixo mostra o número de FIIs ativos por ano. Nota-se que após vários anos com um número muito reduzido de fundos, houve um grande aumento do número de FIIs a partir de 2008. Hoje há 26 FIIs ativos.

Número de FIIs ativos por ano

Número de FIIs ativos por ano

No entanto, quando analisamos o volume financeiro de operações, vemos que, como classe de ativos, estes fundos são historicamente pouco líquidos. Apenas a partir de 2012 podemos dizer que houve um aumento significativo da liquidez média destes fundos. Mesmo assim, nem todos os FIIs aumentaram em volume negociado: dos 26 FIIs ativos hoje, apenas 6 tiverem volume médio diário acima de R$250,000 no último ano.

Volume financeiro médio de FIIs por dia. Média de 1 ano.

Volume financeiro médio de FIIs por dia. Média de 1 ano.

Finalmente, em termos de performance, é inegável que os fundos tiveram boa performance nos últimos anos, principalmente comparados ao mercado de ações. O gráfico abaixo apresenta o retorno médio dos FIIs ativos por ano (independente do volume). Os FIIs ganharam do IBOVESPA a cada ano e só em 2012, valorizaram cerca de 30%, o que pode estar relacionado com o aumento da popularidade e demanda pelos ativos. O desempenho este ano, porém, começa a mostrar um desgaste, com desvalorização média de 8% até outubro.

Retorno médio de FIIs vs IBOVESPA

Retorno médio de FIIs vs IBOVESPA

 

Resumindo este pequeno estudo: os FIIs tem ganhado liquidez e podem ser uma boa alternativa como classe de ativos. Porém, depois de um 2012 muito bom em termos de performance, os FIIs estão tendo um ano ruim, justamente no momento em que estavam ganhando volume. Apesar disto, sem dúvida são uma opção interessante para diversificar uma carteira.

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Construa seu próprio fundo de ações

Não deixo de ficar perplexo com a falta de alternativas e com o alto custo do investimento em ações no Brasil. Apesar de o número de fundos ter crescido muito no Brasil nos últimos 10 anos, os custos dos fundos com maior disponibilidade – os oferecidos pelos grandes bancos – ainda são exorbitantes. Gestores cobram taxas de administração entre 2% até 3,5% (!) ao ano para investimento em fundos simples indexados ao IBOVESPA. Outros fundos menos triviais tem custos que só os hedge funds com melhor desempenho no mundo conseguem cobrar – alguns fundos de ações cobram por exemplo, 2,5% de administração mais 20% de performance sobre o excedente ao IBOVESPA.

Em termos de indexação ao IBOVESPA ou outros índices de ações, existe uma alternativa mais barata – comprar cotas de ETFs como PIBB11 (segue o IBrX, taxa de 0,059%) ou BOVA11 (segue IBOVESPA, taxa de administração de 0,54%). Infelizmente, o número e tipo de ETFs disponíveis no Brasil ainda é limitado, e nem todos possuem volume de negociação relevante.

Um outro caminho possível para o investidor individual é montar e gerir sua própria carteira de ações. Eu, particularmente, gosto da alternativa de montar uma carteira de ações de baixa volatilidade, já que este tipo de carteira demonstradamente supera índices de ações como o IBOVESPA. Isto é devido ao chamado efeito de volatilidade, ou o fato de que o retorno está negativamente associado com risco, ao contrário do que supõe os modelos de finanças.

Esta alternativa é interessante pois a regra de investimento é mecânica – basta calcular as volatilidades de todas as ações disponíveis e compor a carteira com as ações de menor risco. Além disto, ela não depende de uma estratégia de execução avançada, e é menos sensível aos custos operacionais do que outras estratégias quantitativas.

Algumas perguntas surgem naturalmente:

  1. Como operacionalizar e gerir esta carteira de ações?
  2. Qual o custo para um investidor individual?

As respostas destas duas perguntas estão relacionadas. Em primeiro lugar, é preciso definir uma regra clara para a composição da carteira – o equivalente ao mandato do “fundo”. Uma maneira bem simples de explorar o benefício do chamado efeito de volatilidade é montar uma carteira igualmente ponderada entre as ações de menor volatilidade. Para isto, é preciso definir um número de ações. Para ter uma carteira diversificada, é aconselhável investir em pelos menos 20 ações – porém este número fica a cargo de cada investidor. Em segundo lugar, é preciso definir a frequência com a qual a carteira será rebalanceada. O rebalanceamento é importante pois, não só as ações da carteira podem mudar a cada período, mas também os pesos das ações variam ao longo do tempo, devido às variações nos preços dos papéis. Além disto, os dividendos recebidos de certas posições devem ser reinvestidos.

Por exemplo, se o investidor começar com R$50.000, ele deverá investir R$2.500 ou 5% do capital em cada ação. Suponha que o rebalanceamento seja mensal e, passado um mês, a carteira tenha valorizado, atingindo R$55.000.  O investidor agora precisa comparar sua carteira com a carteira proposta pela regra de investimento, e realizar as operações necessárias. Ao fazer isto, ele deverá ficar com aproximadamente R$2750 (5% do capital) em cada ação.

Pela descrição do processo acima, fica claro que, quanto mais frequente for o rebalanceamento, maiores serão os custos operacionais. O interessante é que o desempenho de carteiras de baixa volatilidade está pouco relacionado com a frequência de investimento (ver por exemplo a Tabela 5 deste artigo). Logo, é perfeitamente razoável rebalancear a carteira a cada três ou seis meses, ou mesmo apenas uma vez ao ano, para manter baixos os custos operacionais . O principal custo operacional* é a corretagem paga nas operações, logo é necessária uma estimativa deste valor.

Aqui, precisarei fazer algumas suposições. A primeira é que o investidor paga corretagem fixa por operação, operando no Home Broker (e não uma % do valor operado, como os investidores institucionais). A segunda é que, a cada período de rebalanceamento, o investidor precisa fazer um número de operações igual ao número de papéis na carteira. Esta suposição provavelmente é razoável, pois em alguns meses o investidor pode não precisar operar algumas das ações, enquanto em outros meses, pode ser necessário operar mais do que 20 ações (por exemplo, se novas ações entrarem na carteira).

Fazendo uma busca rápida, descobri taxas de corretagem entre R$14,90 e R$3,05 por operação no home broker nas corretoras do Brasil. Provavelmente existem corretagens acima de R$14,90, mas não creio que os leitores inteligentes deste blog considerem pagar tanto dinheiro assim pelo privilégio de operar via HB.

Utilizando um capital inicial de R$50.000, com rebalanceamento mensal e supondo que há 20 ações na carteira, a tabela abaixo mostra o custo anual total de corrretagem e este valor como porcentagem da carteira.

Custo por ordem
 R$           14,90  R$           10,00  R$               5,00 3,05
Custo anual  R$     3.576,00  R$     2.400,00  R$       1.200,00  R$            732,00
Custo anual (%) 7,15% 4,80% 2,40% 1,46%

Da tabela acima, fica imediatamente claro o alto impacto do valor da taxa de corretagem para o investidor pessoa física. Assumindo um investidor que prefere mais dinheiro a menos dinheiro, e portanto escolherá a menor taxa de corretagem (nota: não tenho relação com nenhuma corretora), podemos avaliar o impacto da frequência de rebalanceamento no custo percentual de operação, de acordo com o capital do investidor:

Custo por ordem 3,05
Frequência de Rebalanceamento da Carteira
Valor Carteira Mensal Bimestral Trimestral Semestral Anual
25000 2,93% 1,46% 0,98% 0,49% 0,24%
50000 1,46% 0,73% 0,49% 0,24% 0,12%
75000 0,98% 0,49% 0,33% 0,16% 0,08%
100000 0,73% 0,37% 0,24% 0,12% 0,06%
150000 0,49% 0,24% 0,16% 0,08% 0,04%
200000 0,37% 0,18% 0,12% 0,06% 0,03%

Observando os valores da tabela, vemos que o custo de ter o seu próprio fundo de ações, mesmo para um capital de apenas R$25.000**, é bem inferior ao custo de um FIA comum, desde que o rebalanceamento não ocorra todo mês. Um fundo de R$50.000 com rebalanceamento trimestral tem o custo comparável com o do ETF BOVA11. E se quiser apelar para um rebalanceamento ainda menos frequente, dá para chegar a menos de 0,1%, dependendo do capital.

Finalmente, um comentário sobre a disciplina requerida para realizar a gestão da própria carteira de ações, especialmente uma carteira com rebalanceamento pouco frequente. Quanto maior for a disciplina do investidor em seguir suas próprias regras, mais próximo do ideal (e de eventuais backtests) serão os resultados reais da carteira. Uma carteira de ações com objetivo de apreciação de capital no longo prazo é inerentemente monótona em termos operacionais. Compare a estratégia de investimento descrita neste post (rebalanceamento semestral ou mesmo anual!) com a atividade de um day trader. day trader pode realizar em um ou dois dias o mesmo número de operações que o investidor da carteira acima fará em um ano. A estratégia descrita neste post é adequada para um investidor de médio/long prazo e/ou que não possui tempo para ficar analisando centenas de gráficos e escolhendo o melhor ponto de entrada/saída para cada papel. Trata-se de uma estratégia de buy and hold melhorada, pois apesar de dinâmica, segue uma regra mecânica e baseada em evidência empírica comprovada por diversos artigos, tanto de acadêmicos quanto de profissionais do mercado de investimento.

*Existem outros custos operacionais, que no entanto são muito baixos em comparação aos custos de corretagem: emolumentos, liquidação e registro, pagos à BM&F BOVESPA (0,0325%), e taxa de custódia, cobrado da corretora, que geralmente repassa ao investidor (0,013%). Podemos adicionar 0.0455% aos valores das tabelas acima.

** É claro que, com valores muito baixos de capital, o investidor não conseguirá comprar lotes-padrão (100 ações) de todos os papéis. Uma solução é operar no mercado fracionário, que possui menor liquidez e maiores spreads. Outra solução é reduzir o número de papéis na carteira. Outra alternativa é eliminar as ações de preços muito altos.