Mais um catastrofista

Dollar to Hit 50 Yen, Cease as Reserve, Sumitomo Says

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Desdolarização? Sim, mas quando?

Um assunto que tem chamado a atenção na mídia é a proposta de substituição do dólar como moeda reserva. Apesar de muitos países provavelmente quererem uma alternativa, no momento ela simplesmente não existe. Hoje em Ecaterimburgo, na Rússia, os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) encontram-se pela primeira vez e a mudança de moeda no comércio entre os países está em pauta. No texto a seguir, um pouco da história de como o dólar se transformou na moeda-reserva, e como e por que isso pode mudar.

Como o dólar virou a moeda de reserva?

Em 1944, as nações aliadas se reuniram em Bretton Woods, New Hampshire, nos EUA, para definir e estabelecer as regras das relações comerciais e financeiras entre os países. Como o livre comércio entre os países depende da convertibilidade entre as moedas, a preocupação maior era a de estabilizar as taxas de câmbio, após as desastrosas tentativas com taxas flutuantes nos anos 1930. O sistema resultante, que levou o nome de Bretton Woods, atrelava as moedas internacionais ao dólar norte-americano, que por sua vez era convertível em ouro à taxa de 35 onças por dólar. O acordo também criou o FMI e o BIRD (hoje World Bank). Com o novo sistema, as taxas de câmbio era fixadas em relação ao dólar, mas podiam variar em uma estreita faixa. Assim, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo passou a usar o dólar como moeda de reserva.

O fim do atrelamento ao ouro…

Após o fim da Segunda Guerra, a Europa estava arruinada, enquanto a economia americana acumulava saldos positivos na balança comercial (exportava mais do que importava). Como as instituições internacionais FMI e BIRD não eram suficientemente grandes  para dar liquidez ao mercado internacional, os EUA promoveram diretamente a saída de dólares (propositadamente operando um déficit) para a reconstrução da Europa através do Plano Marshall. Com o saldo positivo do comércio com os países desenvolvidos, os EUA financiavam a reconstrução da economia europeia, que se tornaria o mercado consumidor de seus produtos.

Com o crescimento do comércio internacional, as reservas de ouro dos EUA tornaram-se pequenas em relação à quantidade de dólares existentes, o que gerou um desequilíbrio, já que havia um mercado aberto de ouro em Londres. Após uma década de medidas para tentar manter a paridade dólar-ouro, em 1971 Richard Nixon  unilateralmente decretou a inconvertibilidade do dólar para o ouro, o que ficou conhecido como “The Nixon Shock”.

…E a expansão dos EUA financiada pelo resto do mundo

Com o dólar como moeda-reserva, e sem o atrelamento ao ouro, os EUA podem, a princípio, imprimir quanto dinheiro quiserem (obviamente com o risco de a moeda perder valor e, claro, dependendo do apetite estrangeiro pelos seus títulos, o que depende de quão endividado o país esteja). Os países precisam ter reservas internacionais para honrar seus compromissos, e essas reservas são compostas, em grande parte, por títulos do governo estadunidense. Os bancos centrais detém hoje aproximadamente U$4 trilhões desses títulos. Essa compra de títulos ianques não reflete uma opção de investimento; os países não tem muita opção para reciclar seus dólares, já que, caso um país deixe de comprar os títulos, corre o risco de sua moeda desvalorizar-se contra o dólar e seus produtos tornarem-se pouco competitivos na exportação.

Esses ‘depósitos’ internacionais praticamente compulsórios têm financiado déficits orçamentários nos EUA nos últimos 30 anos (veja gráfico abaixo), e a expansão do maquinário político-financeiro-militar norte-americano no mundo todo (os EUA são o país que mais gasta com defesa no mundo, 45% do total mundial em 2007). Obviamente, é uma faca de dois gumes. No período que precedeu a crise atual, a compra de dólares pela China, por exemplo, favoreceu bastante as exportações deste país. O grande fluxo de capital internacional (principalmente da China) para os EUA impediu que as taxas de juros de longo prazo caíssem, apesar de sucessivos cortes pelo FED, e ajudou a prolongar o boom imobiliário norte-americano. Com casas mais valorizadas, os estadunidenses reajustavam suas hipotecas, usando o dinheiro que sobrava  para comprar bens de consumo, produzidos, em sua maioria, na China. Hoje, a China tem dólares demais e suas reservas são vulneráveis a desvalorizações na moeda.

Déficit/superavit nos EUA (%)

usdeficit

(fonte: United State's Federal Outlay budget 1901-2006 for the Fiscal Year 2008)

A crise atual prenuncia o fim do dólar como moeda reserva?

Apesar dos déficits, os EUA continuaram com juros e impostos baixos nos últimos anos. E apesar de impor (através do FMI) medidas de austeridade nos países devedores (ainda frescas na memória do Brasil), os EUA não as têm implementado dentro de casa. Mas há sinais de stress em relação ao atual nível de endividamento norte-americano, como as altas nos juros de longo prazo, sinalizando preocupação dos investidores com inflação. Caso os EUA não apertem o cinto e comecem a poupar para tapar o buraco (ou pelo menos financiá-lo mais internamente,  o que parece ser o caso dos títulos emitidos recentemente), a possibilidade de uma desvalorização do dólar (e a necessidade de uma moeda-reserva alternativa) torna-se cada vez mais real (mais sobre o sufoco das nações ricas para livrarem-se de tanta dívida em matéria no The Economist).

Zhou Xiaochuan, governador do BC chinês, recentemente escreveu um artigo pedindo uma reformulação do sistema monetário internacional e a criação de uma moeda global a ser usada como reserva. O temor chinês é que, com um déficit orçamentário e de balança comercial, a política atual do FED de imprimir cada vez mais dinheiro cause uma desvalorização do dólar e, consequentemente, uma queda nas reservas chinesas. Uma possível mudança de moeda-reserva traria grandes riscos para os EUA, que teriam custos maiores para captar recursos, o que atrapalharia o crescimento econômico.

Qual seria a alternativa?

O Brasil já assinou acordos para que o comércio com a China seja realizado em renminbi e na reunião dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) hoje em Ecaterimburgo, a troca de moedas está sendo discutida. O assunto, entretanto, é muito mais urgente para os chineses do que para nós, já que a China detém nada menos do que 24% de todos os títulos americanos, o equivalente a U$740 bilhões (o Brasil detém algo próximo a 4% dos títulos, ou U$133 bi, ver tabela abaixo, disponível aqui).

Foreign owners of US Treasury Securities (January 2009)
Nation billions of dollars percentage
People’s Republic of China 739.6 24.07%
Japan 634.8 20.66%
Oil exporters 186.3 6.06%
Caribbean banking centers 176.6 5.75%
Brazil 133.5 4.35%
United Kingdom 124.2 4.04%
Russia 119.6 3.89%

No entanto, acordos isolados entre alguns países não afetam muito o status do dólar como moeda-reserva. A proposta dos chineses é transformar em moeda global os chamados Direitos Especiais de Saque, ou SDR (Special Drawing Rights). O SDR é uma moeda sintética criada pelo FMI em 1967 e hoje composta por uma cesta de moedas internacionais, a saber, o dólar estadunidense, o euro, o yen e a libra esterlina. Os SDRs, no entanto, só são válidos atualmente em transações com o FMI. Seria necessário que os países começassem a emitir títulos em SDR, para que houvesse liquidez nas transações.

A possível troca de moeda-reserva no âmbito global traz riscos grandes para o sistema financeiro internacional, e por isso sua criação deve ser feita com muito cuidado. Em particular, é uma decisão que deve ser tomada em conujnto por várias economias, para que contemple os interesses da comunidade internacional, e não só de um ou poucos países.