Brasil dos juros baixos

Com a diminuição gradual da taxa de juros básica brasileira, o país deixou, recentemente, de encabeçar a lista dos países com maiores juros reais no mundo. Juros reais equivalem à taxa de juros nominais, determinada pelo BC, ajustada pela inflação. O número 1 da lista agora é a China, com juros reais de 6.6% ao ano, seguida pela Hungria (6,4% aa). O Brasil está em terceirão, com 5,8% (de acordo com a consultoria UpTrend, leia aqui).

A tendência é de queda. O Brasil já está em um patamar no qual não é justificável ter uma taxa de juros tão alta. Afastado o espectro da inflação, que nos traumatizou em décadas passadas, e dado o período de austeridade pelo qual temos passado no governo Lula, o provável é que os juro sigam caindo. Isso trará consequências enormes para diversos segmentos da sociedade. E a mentalidade do brasileiro, acostumado a ser rentista com juro alto e sem risco, terá de mudar. Quem quiser retorno mais alto, terá de se expor a risco maior.

Impacto dos juros baixos

Os bancos estão entre os mais afetados por uma taxa de juros mais baixa, pois terão de diminuir o spread (diferença entre a taxa de juros que os bancos captam dinheiro e a taxa a qual emprestam aos clientes) e, com isso, diminuir seus lucros. O Banco do Brasil aumentou ontem em R$13 bi o capital disponível para empréstimo aos correntistas, além de diminuir taxas de juros em 9 modalidades de crédito. Acusado pela mídia de tomar a decisão sob pressão do governo, o banco justificou-se com os argumentos de ter revisto os critérios de risco de crédito (agora similares aos dos concorrentes privados) e de que a exposição ao risco do BB continuou a mesma. Isso é importante, porque a inadimplência do brasileiro tem aumentado com a crise. Contudo, haverá ganhos de escala com juros mais baixos, já que mais pessoas e empresas podem tomar empréstimos se o dinheiro for mais barato. Os bancos precisarão balancear suas carteiras e expandir o crédito.

Outro segmento que já está sendo afetado pelos juros menores são os planos de previdência. Tipicamente, os fundos de previdência investem uma parcela do dinheiro dos cotistas em renda fixa, e outra em renda variável. Eles têm metas a alcançar, determinadas levando em consideração fatores atuarias, como a expectativa de vida dos aposentados, e econômicos, como rendimento de diversos investimentos. Juros menores significam que fica mais difícil alcançar a meta (que geralmente é a inflação mais uma taxa) investindo em renda fixa. Esses fundos deverão, portanto, aportar mais capital no mercado de ações, o que já atrai investidores estrangeiros para o Brasil, ávidos pelo aumento que a pressão compradora causará no preço das ações.

O comércio varejista, acostumado a extrair boa parte dos lucros de operações de crédito – e não da venda de produtos – também terá de se adaptar. Estima-se que 60% do lucro do setor vem da operação financeira (estimativa do Prof. Cláudio Felisoni da USP). Mas a festa irá acabar em breve.

Finalmente, a queda dos juros afetará também o governo, com a diminuição das dívidas, já que a captação do dinheiro fica mais barata. Dinheiro que era usado para pagar juros pode ser usado em investimento.

Enfim, o processo de queda dos juros exigirá do Brasil (e dos brasileiros) paciência e maturidade. O país tem muito a ganhar com a queda dos juros, e com a mudança de mentalidade que essa queda trará.

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